terça-feira, 13 de março de 2012

Frases (e risada) da semana


O indivíduo pede que lhe entreguem uma pizza e o sacaneta corrige: é delivery, senhor. É delivery a mãe dele, minha pizza é entregue, eu faço questão de que ela seja en-tre-gue! Se o governo não garante nada, pelo menos garanta que a gente vai continuar a entender o que se fala. Eu vou contar o que esse infeliz me disse. A pizza já estava demorando quase uma hora e aí eu liguei para reclamar e sabem o que ele falou? Ele disse "Eu tinha colocado para o senhor de que a delivery ia estar atrasando". Foi isso o que ele me disse e eu quase vou lá com minhas pistolas para fazer justiça pessoalmente e restaurar o primado do homo sapiens, é legítima defesa, estão assassinando a língua portuguesa, são uns antropoides!
*  *  *  *  *  

Só creio que isso pudesse acontecer, ainda que muito remotamente, em São Paulo, onde hoje é bem mais fácil ser assaltante do que fumante. Se o assaltante estiver fumando, duvido que assalte qualquer coisa em Congonhas, por exemplo, porque, assim que passar por baixo da marquise, um ou dois policiais o pegarão. Já assalto simples, sem cigarro, é outra coisa. 

Baiano burro (aliás, mentalmente prejudicado, para não ofender o burro e incutir nas crianças desprezo por um animal tão útil à humanidade) nasce morto, bem sei, mas não se fazem mais baianos como antigamente e não duvido que surja um grupo na Bahia, empenhado em abolir termos e expressões como "baianada" e "gelo de baiano". E certamente apoiarão seus irmãos paulistas na justa revolta destes, ao serem informados de que lombo de carne de boi é chamado na Bahia de "paulista" e que muitos baianos, a cada dia, dizem casualmente "hoje eu vou comer um paulista lá em casa".

Para ler a íntegra (recomendo fortemente!) aqui e aqui

segunda-feira, 12 de março de 2012

É pouco.


Um pequeno comentário apenas. 
Há algumas semanas tem se discutido a necessidade e adequação de magistrados terem direito a 60 dias de férias, mais licença-prêmio remunerada a cada cinco anos. Trata-se de situação não encontrada em outras áreas e que, segundo muitos, não se justifica, uma vez que magistrados são trabalhadores como quaisquer outros. Nunca pensei longamente sobre o assunto, mas tendo a achar que se trata de um privilégio injustificável, mas que a nossa formação histórica explica. Repito: explica, mas não justifica.
Recordei essa discussão a propósito do referendo suíço sobre o aumento das férias das atuais quatro para seis semanas. A população (vox populi vox dei?) votou contra. Lá, como se pode ver, o pessoal gosta mesmo é de trabalhar. 
Fico cá me perguntando qual seria o resultado de um referendo semelhante na terra do carnaval. Adianto meu voto: eu sou a favor. E vou além. Seis semanas de descanso remunerado por ano é pouco para qualquer trabalhador. Desde o mais singelo recolhedor de fragmentos usados (gari e lixeiro) ao mais dedicado físico teórico, passando por magistrados e manicures. Defendo, portanto, dois meses para todos. Começo a campanha, já esperando adesões aos milhões:


 Referendo por 60 dias de férias JÁ!
Seis semanas disso? É pouco. 

Uma curiosidade: neste referendo os moradores de Zurique aprovaram uma resolução que determina a remoção das casas de prostituição dos bairros residenciais e a construção de uma área própria para essa atividade, que na Suíça é legalizada e regulamentada. Aos meus amigos suíços já esrevi sugerindo o nome da rua onde colocarão todas as casas de tolerância. Sim, é relacionado a um evento histórico que nós, gaúchos, nos orgulhamos muito. Faz sentido, não?

sábado, 10 de março de 2012

Comer gente é errado?


algumas semanas recebi um email de um conhecido, também doutorando, indicando um site para baixar livros. Infelizmente o site era bloqueado na Alemanha e eu não consegui baixar nada. De qualquer forma, depois de ter recebido a minha última encomenda da Amazon, fiquei me perguntando se era realmente necessário que eu tivesse acesso ao tal site. 
Primeiro, uma foto. Esclarecimentos vêm depois. 

Pois bem, fuçando na Amazon, descobri esse livro que eu namorava há meses e achava caro (novo custa 25 euros). Estava me enrolando para comprar, muito em função de ser uma leitura de prazer e não uma obrigação acadêmica. 
Semana passada recebi o livro, em perfeito estado. Pode-se dizer que é um livro novo, apesar de não ser. Não há qualquer anotação, risco, marca, dobra, amasso, nada. 

Nada de maliciar o título, pessoal! 
Pois bem, por US$3,13 (que pela cotação de hoje dá algo como €2,30 ou R$5,30) eu adquiri um exemplar do livro. 
Poderia tê-lo baixado de graça? Com algum esforço, acredito que fosse possível. Mas aí haveria dois problemas principais: o primeiro, e mais óbvio, é que eu teria que ler diretamente no computador, o que não me agrada nada; o segundo, e o que provoca discussões acaloradas atualmente, eu estaria violando os direitos do autor e da editora. 
Deixando a segunda discussão de lado, o fato é que agora eu estou lesto e faceiro com o meu livrinho novo(!), que custou menos da metade de um café  médio no Starbucks (que eles teimam em chamar de grande). 
Obviamente que nem todos os livros que eu gostaria de comprar estão disponíveis em sebos ou sites de livros usados; e se estão, não custam essa barbaridade de 50 centavos. Bom, paro por aqui, já que disse que não iria entrar na questão (interessante, controversa e, por vezes, mais ideológica que jurídica) dos direitos de autor e/ou propriedade intelectual. 

Depois eu conto que tal é o livro, mas o título promete... Mais um que eu terei de ler até o final! 

domingo, 4 de março de 2012

Frase da Semana, O Retorno

"Título de Sir? Não, obrigado." 
 Peço perdão aos meus leitores para, excepcionalmente, termos duas frases da semana. Se quiserem, como já é domingo, coloquem na conta da próxima semana.

"The rule of law bakes no bread, it is unable to distribute loaves or fishes (it has none), and it cannot protect itself against external assault, but it remains the most civilized and least burdensome conception of a state yet to be devised. And we owe it, not to the theorists, but to the peoples who, above all others, have shown a genius for ruling: the Romans and the Normans."
Michael Oakeshott, The Rule of Law, 1983, p. 178

Tenho plena convicção de que Oakeshott, apesar de ser um dos maiores (se não o maior) pensadores conservadores/liberais do século passado, é largamente desconhecido no Brasil (e no resto do mundo). Mas isso não impede que se indique a leitura. Vale a pena. Vale muito a pena.

sábado, 3 de março de 2012

Frase da semana


"O maior jugo de um reino, a mais pesada carga de uma república, são os imoderados tributos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos. Não há tributo mais pesado que o da morte, e contudo todos o pagam, e ninguém se queixa; porque é tributo de todos."
Pe. António Vieira, Sermão de Santo António, na Igreja das Chagas em Lisboa, 1642.
Na imagem abaixo, pode-se ler a versão publicada em Coimbra em 1672:
Clique aqui para ver o Sermão completo
(reparem especialmente nos delicados dedos que fizeram a digitaliza
ção). 

E pra quem gosta do Pe. Vieira, sugiro ler e ver isso aqui

sexta-feira, 2 de março de 2012

Febeapá Redux


É conhecida a compilação feita por Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, do Festival de Besteira que assola o País, apelidado carinhosamente de Febeapá. Nos volumes da coletânea original estavam leis, regulamentos, declarações e reportagens absurdas e/ou esdrúxulas: 


Clique na imagem para ler. 


Tendo o Febeapá original como modelo, e já tendo feito um pequeno levantamento antigamente, e também porque tinha que fazer a pesquisa novamente, preparei uma pequena lista, começando em 2010 e terminando nos dias de hoje, sobre as leis que nos regem. Abaixo seguem as principais -  leis estas que foram discutidas, votadas, aprovadas e sancionadas por nossos dignos representantes eleitos. 
    • Lei 12.591Reconhece a profissão de Turismólogo e disciplina o seu exercício.
    • Lei 12.533 - Institui o Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas. 
    • Lei 12.468 - Regulamenta a profissão de taxista.
    • Lei 12.467 - Dispõe sobre a regulamentação do exercício da profissão de Sommelier.
    • Lei 12.389 - Dispõe sobre a instituição do Dia Nacional do Calcário Agrícola.
    • Lei 12.386 - Institui o dia 6 de dezembro como Dia Nacional do Extensionista Rural.
    • Lei 12.285 – Institui Apucarana/PR como a capital nacional do boné.
    • Lei 12.316 – Institui o Dia Nacional do Fiscal Federal Agropecuário.
    • Lei 12.303 – Institui a obrigatoriedade do exame de Emissões Otoacústicas Evocadas.
    • Lei 12.301 – Constitui o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas – Feira Nordestina de São Cristóvão como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
    • Lei 12.282 – Institui Imbituba como capital nacional da baleia franca.
    • Lei 12.238 – Institui o Município de Ipê/RS como Capital Nacional da Agricultura Ecológica.
    • Lei 12.208 – Institui o Dia do DeMolay.
    • Lei 12.206 – Institui o Dia Nacional da Baiana de Acarajé.
    • Lei 12.199 – Institui o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento.
    • Lei 12.198 – Regulamenta a profissão de repentista.
    • Lei 12.193 - Designa como Dia da Inovação o dia 19 de outubro.
    • Lei 12.103 – Institui o Dia Nacional do Bumba Meu Boi.
    • Lei 12.092 – Institui o Dia Nacional do Cerimonialista.
    • Lei 12.068 – Institui o Dia do Pescador Amador.
    • Lei 12.054 – Institui o Dia do Movimento Pestalozziano no Brasil.
    • Lei 12.025 – Institui o Dia Nacional da Marcha para Jesus.
    • Lei 11.928 – Institui o Dia do Vaqueiro Nordestino.
    • Lei 11.926 – Institui o Dia Nacional da Bossa Nova.

Vejam, vocês, meu leitores queridos e inteligentes, que há uma lei apenas para fixar os critérios que definem o que é uma data comemorativa de alcance e abrangência nacional. Há uma, muito especial, mas que ficará guardada para quando o dia chegar. Vocês perdem por esperar; e perdem muito. 
Enfim, Stanislaw Ponte Preta, se vivo, ficaria muito orgulhoso.


Sexta-Feira Musical



Lord, I need lovin'... 
Lord, I need good good lovin'...




Aqui a versão original.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Manteiga que falava Javanês


Lembram disso aqui
Pois é... 


O vídeo abaixo informa que a artista (coloquem quantos 'sic' forem possíveis) é natural da Indonésia, mas passa seus dias, assim como eu, na Alemanha, mais especificamente em Braunschweig (*). 



Quando é que a juventude intelectual e descolada vai entender que nem tudo (melhor: nem qualquer coisa) é arte? As palmas ao final, com aquele entusiasmo todo, indicam que não será logo.


Reparem no jovem que tira fotos freneticamente com seu smartphone. Fico cá me perguntando para que registrar com tanto afinco isso. Ele pretende mostrar pra alguém? Se sim, essa pessoa também vai achar "genial, inovador, contestador" uma mulher de meia idade dançando - ou tentando dançar - em cima da manteiga? E se a pessoa não ver nada artístico em uma mulher acima do peso escorregando na gordura, o que fazer com as fotos? (minha  modesta sugestão)


Se há algo de contestador no vídeo, é ver uma asiática acima de peso. Isso deveria ser a "obra de arte". Elaboro um texto rápido a ser lido (de preferência em javanês) enquanto se dança sobre os cubos de gordura: 
"Vejam, ocidentais, como o ocidente engorda!
Abaixo a exploracão capitalista das vacas leiteiras! 
Abaixo a manteiga imperialista ocidental!"
Havendo texto, o rapaz das fotos poderia filmar com a câmera 45 TeraPixel do seu iPhone 5S GTi Ultra MaxBlaster. E depois mostrar para os seus amigos, tao descolados e antenados quanto ele. E todos podem, ao fim, concordar: não fosse a margarina imperialista, todos os asiáticos estariam com o peso ideal. 


Seria o caso, se fossemos levar a sério essa patacoada reluzente, de questionar se, em seu país de origem, de maioria muçulmana, uma mulher gordinha de meia idade poderia dançar na manteiga mostrando tanta pele. Melhor: se uma mulher poderia dançar na manteiga, mesmo que coberta. Ainda melhor: se uma mulher poderia dançar. Ponto.  


Ou, em outra aproximacão, de questionar se, num país com riquezas naturais quase intermináveis, como é a Indonésia, o populacho miserável não poderia fazer bom uso de 20 barras de manteiga. A resposta todos conhecemos: o povo precisa se alimentar de cultura, nem que seja passando fome de comida. E ela, para citar Brecht (e parecer inteligente), continua comendo e bebendo. 


Não faz arte, minha filha!, gritaria a minha querida mãe. Eu grito, por escrito e virtualmente: não assistam a isso, alemães! Isso não os torna mais legais, cultos, descolados ou contestadores. Apenas os torna testemunhas do desperdício de comida. E de tempo. Mas, principalmente, torna-os cúmplices na destruicão do conceito de arte. 


De nada adiantam meus gritinhos virtuais, obviamente. Em uma sociedade onde a alta cultura - aqui inclui-se, obviamente, a boa arte contemporânea - é estigmatizada como elitista e preconceituosa, dançar na manteiga parece ser o melhor que se oferece aos jovens de boa cabeça. Doente do pé, como se nota, só a artista. 
Eu, como todos podem supor, já fui acusado de elitista e preconceituoso quando afirmei que isso não é culturalmente equivalente a isso, apesar de pertencerem à mesma geracao e cultura (o número de vezes que cada um dos vídeos foi assistido indica que eu estou inapelavelmente equivocado), ou que isso é muito distinto disso, apesar do alcance popular de um e de outro. 


(*) Ironia das ironias, em Braunschweig há um museu que conta, vejam vocês, com arte de verdade. A menina com cálice de vinho, de Veermer, século XVII. Pintou pouco ele, mas sempre sem manteiga. E fez Arte, com um gigantesco "a". Para quem gosta de história da Arte deve ser um prato cheio sair de um museu com Veermer e ir ver a gorducha escorregar na manteiga. 


Reparem que Vermeer preferiu laranjas à manteiga nesta pintura

Cantinho do Brasil-il-il: Há uns tempos, discutindo isso com um amigo doutorando por aqui, ele me contou que, quando era adolescente, uma instituição abriu um concurso cultural para selecionar as melhores "obras de arte". Um amigo e ele, sem nada melhor pra fazer, tiraram fotos de uma batata que a mãe de um deles havia deixado cozinhando. Sem nenhuma ideia melhor, disseram que a fotografia representava "a fome do povo paraense". Foram selecionados. Ah!, claro, tudo com dinheiro público. 

Doutorado na Alemanha


Expectativa:


Realidade:


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

2 histórias e uma confissão ou São Paulo, Catmandu



Dias atrás, tentando fazer um agrado, mandei um pacote ao Brasil. Calculei as datas para que ele chegasse exatamente no dia em que eu deveria estar no Brasil, mas, como todos sabem, não seria possível estar. Confuso, não?! 
Enfim, calculei tudo, dirigi-me ao posto dos Correios e, em rápida conversa com a simpática senhora que me atendeu, fiquei sabendo que o meu planejamento todo não me concederia segurança de que o pacote seria entregue na data que eu gostaria. Indaguei, obviamente, o porquê. "A razão", disse-me ela com aquele olhar de quem fala com um índio com a cara pintada, "é que nao podemos garantir que o Correio do país do destino cumpra a sua parte. Aqui nós garantimos que em dois dias úteis seu pacote já estará a bordo do avião cargueiro com destino ao seu país. Chegando lá, nao temos mais controle sobre isso."
Ato contínuo, me entregou um folder com as informações abaixo: 

Vê-se que o Brasil, mesmo com toda a propagando de ser o país do presente, onde tudo funciona, as coisas só melhoram, todos são felizes o tempo todo, etc., etc., etc.,  perde para países que, além de maior distância geográfica, têm menos relevância política, econômica e sentimental (na falta de melhor palavra). 
Ganhamos de apenas um país: China. Isso é bom? Pode até ser, mas não nos esqueçamos que perdemos para "potências" como Cazaquistão, Togo,  Malásia, Singapura, Namíbia, Paquistão e Nigéria. Suprema derrota para os hermanos. Empatamos com os nepaleses. 
Há tempos que se discute sobre a manutenção do monopólio dos Correios no Brasil. O que eu acho? Nunca pensei seriamente sobre o assunto. Sei que há decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o assunto que eu, mesmo sabendo que devo, ainda nao li (lerei, já digo aos amigos, quando o correio chinês for mais eficiente que o nosso).
Tudo isso para dizer que já faz 16 dias que enviei o pacote, que saiu da Alemanha - como prometido - dois dias depois, chegando no terceiro dia em São Paulo e, até hoje, encontra-se, como me noticia o site, "recebido no agente do país de destino". 

Pelo menos ganhamos da China, certo?


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Agora que estou tentando levar uma vida mais saudável, tenho pegado o bonde (já disse que nao gosto de escrever tram, certo? Certo.) um pouco mais tarde. Invariavelmente tenho encontrado o carteiro que faz o percurso que passa pelo Instituto. Sujeito estranho, está sempre (não, não exagero!) com um cigarro na boca. 
Hoje, como de costume, subi no bonde e lá estava ele, com seu cigarro apagado, olhando para o chão, descuidado das cartas que se amontoavam no carrinho. Chegando perto da estacão em que ambos descemos, vi que ele começou a se agitar, levantou, olhou para os lados, colocou a mão no bolso, olhou o relógio, me encarou e sorriu. Sorri de volta, sem saber o que estava acontecendo. Por alguma razão que desconheço, o bonde parou e as portas nao abriram. Esse senhor comecou a ficar nervoso, mexias nos bolsos a procura de algo. Eu, já neurótico, achei que ele ia fazer alguma coisa contra mim. 
Ledo engano. Ele finalmente encontrou seu isqueiro num dos bolsos e, antes mesmo das portas se abrirem, acendeu seu cigarro. Uma velhinha que estava sentada atrás dele começou a gritar desesperada, que ele não poderia fumar ali, que fumar era proibido, que isso afetava a saúde de todos. As portas finalmente se abriram e ele, com o cigarro pendurado nos lábios, se despediu de mim. Quando fui dar o "Tschüss" pude perceber o prazer que aquele homem sentia ao tragar seu cigarro. 
Confesso que senti uma ponta de inveja daquele senhor e que, por alguns segundos, pensei em comprar uma carteira de cigarro numa máquina que há na esquina da estacão. Tendo ele um trabalho horrendamente monótono e e pessimamente remunerado, pude sentir que aquela tragada, naquele momento, representava um prazer alcançável apenas para iniciados na arte do tabaco. 

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A confissão: comprei, já há alguns meses, um libreto com uma coletânea de frases, citações, tiradas, aforismos e o que mais, do Oscar Wilde. O homem era genial, como todos sabem. Logo, quando me ouvirem citar Oscar Wilde, não pensem que perdi meu tempo lendo The Picture of Dorian Gray, De Profundis, The Importance of Being Earnest, The Soul of Man under Socialism, The Critic as Artist. Não, não li. Li apenas a coletânea de pouco mais de 50 páginas... 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mister Happy e o Carimbo de Aprovação


Já devo ter escrito aqui algumas vezes que, de tempos em tempos, perguntam-me sobre as principais diferenças entre o Brasil e a Alemanha. Sempre respondo com obviedades, platitudes, lugares-comuns e alguma piadinha sobre cerveja. 
Geralmente os alemães aceitam aquelas baboseiras como sendo uma análise sociológica e antropológica profunda sobre as distinções entre os dois povos, como se eu fosse uma versão tupiniquim do Bernard Lewis. 
Felizmente, meus problemas acabaram. Nunca mais vou precisar responder essa pergunta. Quando me perguntarem sobre as diferenças, vou mandar os alemães assistirem o vídeo abaixo, cujo título fala por si só: 


Isso sim é um resumo do que nos diferencia dos alemães (e, a bem da verdade, do resto do mundo). Com uma análise sobre as origens da brasileira, inclusive. Sociológica e antropologicamente profundo. De brinde um estetoscópio pendurado no pescoço, para conferir seriedade médico-científica à análise. Profundíssimo!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

3 histórias


Já faz algum tempo que não escrevo. A tese tem tomado tempo demais. E a vida tem me consumido energia demais para gastar o que me sobra escrevendo para ninguém ler. Hoje, no entanto, resolvi ressuscitar alguns textos que eu havia começado e, para variar, nunca terminado.
Algumas coisas têm me incomodado, outras me dado tranquilidade para continuar aqui. Tais coisas são, no momento, irrelevantes e eu não escreverei sobre elas. Os mais próximos sabem o que e quem são cada uma delas.
Começo com um texto que eu escrevi há vários meses, logo após aquele sujeito descontrolado ter atropelado vários bicicleteiros do Massa Crítica em Porto Alegre.

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Com o fim do inverno, o derretimento da neve e o fim do vento cortante, retirei a minha bicicleta do porão e comecei a pedalar para os lugares que eu preciso ir. Saio de casa cedinho, venho para o Instituto e em 20 minutos estou sentado na minha mesa, esbaforido e ofegante, pronto para começar o dia. 

Tudo muito bem. Tudo muito bom. 

Há algumas semanas um sociopata atropelou várias pessoas que faziam um protesto pacífico em Porto Alegre pelo uso de mais bicicletas no trânsito. Tema mais do que necessário, ainda mais em uma cidade onde o trânsito na hora do rush tranca e não se chega a lugar algum. Lembro de ter que transitar pela BR101 para ir e voltar do trabalho. Um horror. O planejamento é precário, as condições péssimas, o controle pífio... Enfim, todos sabem a realidade do trânsito nas grandes cidades brasileiras. 

Depois desse atropelamento muito se comentou sobre o uso de bicicletas como alternativa aos automóveis. Todos os discursos foram apologéticos, conclamando a todos que abandonassem os carros e começassem a pedalar de lá pra cá. Todos têm meu total apoio. Não poderia concordar mais. 
Ontem à noite, contudo, tive um pequeno transtorno e fiquei aqui a imaginar o que aconteceria se eu  estivesse no Brasil. 
Como sempre, e ontem não foi diferente, vim de manha cedo para o Instituto. À noite, ali perto das 20 horas, já escuro, resolvi encerrar o dia e voltar pra casa. Qual não foi a minha surpresa quando percebo que estava chovendo. 
As regras aqui permitem, em algumas situações, que se carregue a bicicleta dentro dos ônibus e bondes (trams). Peguei a minha magrela e entrei no tram. Junto comigo estavam outras pessoas e suas respectivas bicicletas. 
Fiquei pensando o que ocorreria no Brasil. Poderia eu entrar com a minha bicicleta no ônibus? E como eu faria para passar pela roleta? E no Trensurb, como eu passaria pela catraca? E os outros passageiros que se amontoam pelos corredores, abririam lugar para a minha magrela?
Cheguei na estação e percebi que seria impossível pedalar até em casa. Resolvi deixar a bicicleta ali mesmo. Coloquei o cadeado, com a certeza de que a minha bicicleta estaria no mesmo local, nas mesmas condições, no dia seguinte.
Não posso deixar de me perguntar se o mesmo ocorreria no Brasil. Sendo bem realista, como a minha bicicleta é uma porcaria, tenho quase certeza de que ninguém ia roubar ela. Mas, sendo ela melhorzinha, não é crível supor que ela seria roubada? Ou algumas de suas partes arrancadas e/ou desmontadas? Eu, sendo realista, acredito que sim. 
Enfim, escrevo apenas para mostrar que trocar o automóvel pela bicicleta é algo que deve ser estimulado, incentivado e comemorado. Mas não é tão simples, como querem fazer crer os meus amigos no Facebook...

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Esse foi o primeiro texto que eu escrevi e não publiquei. Relendo, acredito que ele mereceria mesmo é a lixeira ou o esquecimento. Com a quantidade de acessos do blog, publica-lo aqui é a realização disso...
O segundo texto diz com as diferenças culturais entre pessoas em posição hierárquica superior. Segue:

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Hoje chego em casa tendo tido uma experiência bastante distinta. Aliás, distinta até demais.

Fui obrigado a participar de um Seminário sobre Justiça Constitucional em Karlsruhe, cidade onde ficam os principais tribunais superiores da Alemanha. Sim, leitor, você imaginou corretamente: os tribunais superiores não ficam na mesma cidade do Parlamento e da sede do Poder Executivo. Ficam, para falar bem a verdade, quase que do outro lado do país. Bom ou ruim, isso não cabe a mim decidir. Apenas é assim, num reforço ao federalismo alemão.


Continuando: uma das atividades do Seminário era um tour guiado pelos principais pontos histórico-jurídicos da cidade. O guia: um juiz do Bundesgerichtshof. O Bundesgerichtshof é o equivalente ao nosso Superior Tribunal de Justiça. Agora imagine o querido leitor: um ministro do Tribunal Superior pega seu sábado à tarde para passear pelas ruas da cidade, mostrando prédios, ruas, estátuas, pedras e esquinas ao grupo de estudantes desconhecidos.
Como diziam os comerciais do 011-1406, mas espere, isso não é tudo: no meio do tour, começou a chover. O ministro ali, puxou um boné da sacola e continuou falando sobre Bismarck tomando água na cabeça. Alguém ofereceu o guarda-chuva, prontamente recusado: „Se eu não trouxe o meu, não devo usar o seu“, disse o simpático ministro.
Continuamos o tour, com uma pequena trégua da chuva e chegamos ao seu final, uma esquina onde ficava o Bundesgerichtshof. Ele explicou como era o trabalho dele, quantos processos ele julgava e assim por diante. Ao final, após as palmas e agradecimentos, um dos organizadores começou a agradecer em nome do grupo e fez menção de entregar uma garrafa de vinho alemão (que havia sido comprada na noite anterior pela bagatela de €11,90). O Ministro, visivelmente constrangido, disse: „Vocês já deveriam saber que eu não posso aceitar esse presente. Fiz isso porque acredito na formação das novas gerações. Como funcionário público, não posso aceitar pagamento por algo que julgo ser parte da minha função.“
Dessa vez eu puxei o aplauso e fui o último a parar de bater palmas. Não estava acreditando naquilo. Primeiro, um ministro que pega seu tempo para andar na chuva com estudantes e, depois, recusa uma garrada de vinho porcaria por ser funcionário público. Se havia moralidade administrativa, aquilo era o exemplo (devo dizer que um outro assessor do Tribunal Constitucional já havia recusado o mesmo presente no dia anterior, com o mesmo fundamento).
Quando coloquei a cabeça no travesseiro, um pensamento me veio de assalto: meu melhor companheiro nos tempos da faculdade era motorista do Tribunal de Justiça. Isso mesmo, ele era motorista de um desembargador. Se esse tipo de regalia existe até para os desembargadores, imaginemos o que têm os Ministros lá em Brasília.  Mas, enfim, talvez as realidades sejam diferentes e tais regalias sejam merecidas. Mas não deixa de ser salutar que um agente público, independentemente de sua graduação na escala estatal, recuse uma garrafa de vinho com base na moralidade.

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Esse foi o segundo. Sempre que o leio, ou relembro da história, fico um pouco feliz de ter escolhido a Alemanha para estudar e um pouco triste com a realidade brasileira. Eines tages, como costumo dizer aos meus amigos brasileiros que falam alemão.
O terceiro texto, que reproduzo mesmo que não esteja finalizado, diz com uma história que me aconteceu na última vinda pra cá.

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Subi no voo POA-GIG já de saco cheio. Afinal, é muito melhor passar os dias com quem se ama do que passa-los na frente de um computador escrevendo um trabalho que não será lido por muita gente.

Depois de tudo certo com o voo, as comissárias (ainda é feio chamá-las de aeromoças?) começaram a servir aquele sanduíche de micro ondas que oferecem com guaraná nos voos curtos.

Umas das passageiras, infelizmente a que esteva sentada na minha frente, começou a gritar (não é exagero meu!) que estava nauseada por causa do cheiro do presunto e que as comissárias deveriam parar de servir aquilo para que ela não vomitasse. Uma delas, com um sorriso, perguntou: „Minha senhora, nos temos quase 150 pessoas nesse voo. A senhora quer que todos fiquem sem comer?“.

A passageira – gaúcha – nem piscou e lascou: „não quero nem saber. Tô passando mal... Tira esse negócio da minha frente. Ninguém precisa comer isso... Parem de servir essa coisa horrorosa!!“
Outras duas comissárias (aeromoças?) se aproximaram e tentaram convencer a primadonna do sanduíche. Nada feito. Uma senhora ao lado dela, deu de ombros, abriu seu sanduíche e com, no máximo, 5 mordidas ele desapareceu. Do outro lado, um sujeito tentava acalmar ela com argumentos médicos sobre a comida e as náuseas. E eu ali, atrás dela, pensando se o egoísmo poderia ser considerado um tipo penal. De lege ferenda, sugiro que sim. 

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Como vocês [sim, sou otimista que tenho mais de um(a) leitor(a)] nada de muito especial que realmente merecesse ser publicado. 

Isso me faz lembrar de uma boutade do poeta inglês Alexander Pope (séc. XVIII) que dizia que ele merecia ser criticado pelo que ele escrevia e ovacionado pelo que jogava fora... 

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sermão ou Bom ladrão


Escreve-me um ex-aluno, que há anos não vejo e do qual não tenho notícias: 
"Prof tu foi meu prof (...) e eu sempre gostava das tuas aulas... Me formei BACHAREL em DIREITO em 2010 e ainda estou batalhando pela OAB. Estava firme de que o STJ ia declarar a inconstitucionalidade desse exame que é uma verdadeira forma de manter bons advogados fora do mercado de trabalho, reservando os clientes para os mais velhos. 

Pensei bastante e conversei com meu pai que me sugeriu procurar outras formas de usar meu título de BACHAREL em DIREITO e sempre tive vontade de ser ou juiz ou professor ou promotor... Por isso te escrevo, para saber como é que eu faço para ser professor na faculdade. Vou tentar os concursos pra juiz também mas por enquanto isso quero ser professor e para isso não preciso de OAB nem de concursos de magistratura, já que sou BACHAREL em DIREITO. 

Quais as dicas que tu dá pra quem quer ser professor de DIREITO? Eu sempre gostei de estudar e de ler e de falar... 

Obrigado professor.

Abs"
Isso me lembrou de uma historieta que se conta do Ruy Barbosa. 
Um aluno questionou como faria para dominar o vernáculo com a maestria que ele tinha. A Águia de Haia mandou-lhe ler a obra do Pe. Vieira. O estudante, ainda não satisfeito, disse que já havia lido o Pe. Vieira e gostaria de saber como o mestre Ruy havia feito para dominar a inculta e bela. Ruy Barbosa, impassível, disse: faça como eu fiz, continue a ler o Pe. Vieira. O estudante, nem um pouco satisfeito com a resposta, interpelou o Mestre: "Prof. Ruy Barbosa, o senhor não está entendendo: Eu quero saber como faço para usar o português como o senhor". Ruy Barbosa calmamente responde: "Nunca pare de ler o Pe. Vieira".

Dicas, meu caro ex-aluno? Sinceramente não sei o "caminho das pedras". 
Mas sugiro continuar estudando. E depois disso, continuar estudando. E nunca parar de estudar. E quando sobrar um tempo, leia os Sermões do Pe. Vieira. Ser-te-ão de enorme valia. E, se no meio disso tudo tu ainda tiver um tempinho, passa na prova da OAB. 

Isso me levou a pensar sobre a imagem do professor universitário nas faculdades de direito que formam esses BACHARÉIS em DIREITO. Sou o único?! 


Update: Meu ídolo Bruno Aleixo avisou-me que, também ele, é apreciador do estilo do Pe. Vieira.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Continuarei.

Recebi o seguinte comentário em um post bastante antigo: 
Please tell me that youre going to keep this up! Its so great and so important. I cant wait to read far more from you. I just feel like you know so substantially and know how to make people listen to what you've got to say. This weblog is just also cool to be missed. Excellent stuff, really. Please, PLEASE keep it up!
O blogspot me deu a opção de marcar como spam. Tá louco, blogspot? 
Esse é uma opinião séria, real e que leva em conta tudo que eu tenho pra dizer. 

Obrigado, comentarista. Thank you very much. 



domingo, 9 de outubro de 2011

Flaschen Peter



Há um velho mendigo aqui em Heidelberg conhecido por Flaschen Peter (Pedro Garrafa, numa tradução livre). Ele frequenta todas as palestras  gratuitas oferecidas pela faculdade de direito, de filosofia e de história (e não são poucas).
Já o encontrei em muitas, e ele sempre lá, fedendo, com suas roupas sujas e rasgadas.
Dias atrás resolvi perguntar para um conhecido se ele sabia quem era aquele sujeito e porque ele frequentava as palestras se ele não entendia nada.

Ele me olhou e com um riso cínico respondeu: “Pedrinho, as aparências enganam...”. E saiu caminhando. Depois me mandou um email explicando. Sem saco pra traduzir o email, faço um pequeno resumo: esse sujeito, o Flaschen Peter, era um aluno brilhante da faculdade de história e filosofia e se formou com todas as láureas possíveis. Depois de um tempo, recebeu um convite para fazer doutorado com um respeitado professor de história das ideias e história da filosofia. Ele se recusou e disse que preferia manter a sua liberdade.

Hoje ele vive em total liberdade acadêmica, lendo o que quer (não poucas vezes o encontrei na biblioteca central), frequentando as palestras que tem interesse, recolhendo garrafas para poder comer, dormindo em bancos de praça e tomando banho em um chafariz na frente do Deutsche Bank.

Nunca o vi fazendo perguntas ou anotações, mas reza a lenda que há uns anos ele humilhou um professor que deu dados errados sobre a história da Alemanha no baixo medievo. Vai saber... 

Cansei. Tô cansadinho.

Aí me escreve um amigo:


“Pedrinho, por que tu não escreve mais? Cansou? Teus dois leitores sentem a tua falta...

Respondi a ele então, e respondo aqui agora: cansei. Há tempos que venho pensando nisso.
Estou cansado. Passo os dias fazendo a mesma coisa há dois anos. Venho para o mesmo lugar todo santo dia há nove meses.
“As coisas são lentas” alertava-me um professor antes de eu vir pra cá. Mas tão lentas assim, porra?! Não dá pra acelerar só um pouquinho?
Deixo a construção de blogs para as pessoas que sabem escrever; ou aquelas que só querem derramar no papel a sua ignorância; ou, melhor, aquelas que realmente acreditam que têm algo a dizer.
Eu não tenho nada a dizer. Só que cansei. 



quarta-feira, 16 de março de 2011

Entre autonomia, solidão, liberdade e individualismo



Lisbon Revisited

Álvaro de Campos (F.P.)
1923


Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.



Não me venham com conclusões! 
A única conclusão é morrer.


Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!



Que mal fiz eu aos deuses todos?


Se têm a verdade, guardem-na!


Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?



Não me macem, por amor de Deus!


Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?



Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!



Ó céu azul -o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ô mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.



Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!




Estarei transferindo para estar podendo melhor lhe atender...

Conversa verídica agora há pouco:

Telefone toca.

Pedrinho: Alô.
Voz: Olá, Sr. Pedrinho, o senhor teria alguns minutos do seu tempo?
P.: Sim, claro. Sobre o que seria?
V.: Nosso banco de dados nos informa que o senhor costuma fazer ligações para o exterior.
P.: Sim. Para o Brasil.
V.: O senhor faz as suas ligações internacionais primariamente para o Brasil. Correto?
P.: Sim. Corretíssimo. Para o Brasil. E então, qual o motivo desta ligação?
V.: Eu ligo para lhe oferecer um novo pacote de serviços da o2 [empresa de telefone], pelo qual as suas ligações para o exterior custarão apenas 19 centavos por minuto. O senhor teria interesse?
P.: Claro. Teria bastante interesse.
V.: Ótimo. O senhor terá direito a cinco números cadastrados, para os quais o senhor ligará por 19 centavos o minuto, num custo máximo de 2,99 euros. Caso a ligação passe deste valor, o resto não será cobrado.
P. (já imaginando fazer ligações intermináveis): Ótimo. Gostaria de cadastrar 3 telefones fixos e 2 celulares, todos com prefixo 054, no Brasil.
V.: Brasil? O senhor disse Brasil, sr. Pedrinho?
P.: Sim. Brasil. O senhor sabe que minhas ligações internacionais são primariamente para o Brasil, para usar as suas próprias palavras.
V.: Um minuto, por favor.

Passam-se alguns segundos e o sujeito retorna.

V.: Caro sr. Pedrinho, infelizmente o Brasil ainda não está na lista de países disponíveis para a promoção. O sr. ainda teria interesse em cadastrar os números?
P.: Mas os números são do Brasil. Teria alguma vantagem em cadastra-los?
V.: Nao que eu consiga imaginar.
P.: Então, porque o sr. me ligou?
V.: Para lhe oferecer os benefícios da promoção, já que o sr. costuma ligar para o Brasil e isto é considerado, como o senhor sabe, uma ligação internacional. 
P.: Sim, ligo para o exterior. Para o Brasil, como o seu sistema pode lhe informar. Mas se a promoção não se aplica ao Brasil e consequentemente nao se aplica a mim, por que estamos tendo essa conversa?
V.: Em nome da o2, desejamos um confortável resto de quarta-feira. Ligaremos assim que o Brasil for incluído na lista de países.
P.: Por favor, não me liguem nunca mais.
V.: O sr. quer cancelar a sua linha?
P.: Não. Obviamente que não. Em momento algum eu disse isso. Eu não quero mais ser importunado por ligações sem sentido como essa.
V.: Desculpe, sr. Pedrinho, mas nós ligamos para lhe oferecer um benefício. Essa ligacao tem, obviamente, um sentido e uma boa intenção. 
P.: Que nao se aplica a mim. Ou?
V.: Hmmm. Hmmm... O sistema deve ter se equivocado. O sr. gostaria de fazer uma reclamação?
P.: Sim.
V.: Isso levará cerca de 10 minutos.
P.: Então não. Vielen Dank.
V.: Um bom resto de dia para o senhor.

Desligo. A única coisa que consegui pensar foi naquele policial que entrava nos sketchs do Monty Python quando a coisa começa a ficar non-sense demais.


O Mundo é um Moinho

A esperança, já disse aquele filósofo de bigode avantajado, é o pior dos males. Quando nos damos conta, a vida nos traz as piores surpresas. No meio das ruins há, obviamente, algumas boas. Que serão novamente seguidas de ruins. Esse mundo, tão mesquinho, reduz nossas ilusões a pó. 
O que importa, diriam alguns, é não desanimar e seguir sempre em frente.
O vídeo abaixo é um extrato de um documentário sobre o sambista Cartola e a relação conflituosa com o pai. Depois de 40 anos (sim!) eles se reencontram. O filho, ainda um pouco envergonhado, pergunta ao pai qual o samba que ele gostaria de ouvir. 
O pai, depois de quatro décadas, em uma primeira análise escolhe provavelmente o samba menos apropriado para o momento: 



Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés



Quarenta anos depois e o pai pede ao filho que cante: 
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
(...)
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés



Pensando melhor, não existe samba mais apropriado. Fico cá imaginando a dor de um pai depois de perceber que passou boa parte da vida longe do filho: o mundo, esse moinho, triturou mesmo seus sonhos.
Para o Cartola, que, depois de se consagrar como sambista da Mangueira nas décadas de 20 e 30, virou lavador de carros e só voltou ao samba graças ao Stanislaw Ponte Preta, deve ter percebido, ali ao lado do pai cantando aquele samba, que estava à beira do abismo, abismo que cavou com os próprios pés.

A única conclusão que nos resta é concordar com o aquele maluco  e balançar a cabeça repetindo que a esperança, no homem, na vida, na humanidade, no futuro, ou em qualquer outra coisa, é, de fato, o pior dos males. A esperança em si mesmo, bem, essa pode ser redentora se de antemão soubermos que vamos fracassar ou ridícula se realmente acreditarmos que vamos "fazer a diferença"...