sexta-feira, 2 de março de 2012
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
A Manteiga que falava Javanês
Lembram disso aqui?
Pois é...
O vídeo abaixo informa que a artista (coloquem quantos 'sic' forem possíveis) é natural da Indonésia, mas passa seus dias, assim como eu, na Alemanha, mais especificamente em Braunschweig (*).
O vídeo abaixo informa que a artista (coloquem quantos 'sic' forem possíveis) é natural da Indonésia, mas passa seus dias, assim como eu, na Alemanha, mais especificamente em Braunschweig (*).
Quando é que a juventude intelectual e descolada vai entender que nem tudo (melhor: nem qualquer coisa) é arte? As palmas ao final, com aquele entusiasmo todo, indicam que não será logo.
Reparem no jovem que tira fotos freneticamente com seu smartphone. Fico cá me perguntando para que registrar com tanto afinco isso. Ele pretende mostrar pra alguém? Se sim, essa pessoa também vai achar "genial, inovador, contestador" uma mulher de meia idade dançando - ou tentando dançar - em cima da manteiga? E se a pessoa não ver nada artístico em uma mulher acima do peso escorregando na gordura, o que fazer com as fotos? (minha modesta sugestão)
Se há algo de contestador no vídeo, é ver uma asiática acima de peso. Isso deveria ser a "obra de arte". Elaboro um texto rápido a ser lido (de preferência em javanês) enquanto se dança sobre os cubos de gordura:
Reparem no jovem que tira fotos freneticamente com seu smartphone. Fico cá me perguntando para que registrar com tanto afinco isso. Ele pretende mostrar pra alguém? Se sim, essa pessoa também vai achar "genial, inovador, contestador" uma mulher de meia idade dançando - ou tentando dançar - em cima da manteiga? E se a pessoa não ver nada artístico em uma mulher acima do peso escorregando na gordura, o que fazer com as fotos? (minha modesta sugestão)
Se há algo de contestador no vídeo, é ver uma asiática acima de peso. Isso deveria ser a "obra de arte". Elaboro um texto rápido a ser lido (de preferência em javanês) enquanto se dança sobre os cubos de gordura:
"Vejam, ocidentais, como o ocidente engorda!
Abaixo a exploracão capitalista das vacas leiteiras!
Abaixo a manteiga imperialista ocidental!"Havendo texto, o rapaz das fotos poderia filmar com a câmera 45 TeraPixel do seu iPhone 5S GTi Ultra MaxBlaster. E depois mostrar para os seus amigos, tao descolados e antenados quanto ele. E todos podem, ao fim, concordar: não fosse a margarina imperialista, todos os asiáticos estariam com o peso ideal.
Seria o caso, se fossemos levar a sério essa patacoada reluzente, de questionar se, em seu país de origem, de maioria muçulmana, uma mulher gordinha de meia idade poderia dançar na manteiga mostrando tanta pele. Melhor: se uma mulher poderia dançar na manteiga, mesmo que coberta. Ainda melhor: se uma mulher poderia dançar. Ponto.
Ou, em outra aproximacão, de questionar se, num país com riquezas naturais quase intermináveis, como é a Indonésia, o populacho miserável não poderia fazer bom uso de 20 barras de manteiga. A resposta todos conhecemos: o povo precisa se alimentar de cultura, nem que seja passando fome de comida. E ela, para citar Brecht (e parecer inteligente), continua comendo e bebendo.
Não faz arte, minha filha!, gritaria a minha querida mãe. Eu grito, por escrito e virtualmente: não assistam a isso, alemães! Isso não os torna mais legais, cultos, descolados ou contestadores. Apenas os torna testemunhas do desperdício de comida. E de tempo. Mas, principalmente, torna-os cúmplices na destruicão do conceito de arte.
De nada adiantam meus gritinhos virtuais, obviamente. Em uma sociedade onde a alta cultura - aqui inclui-se, obviamente, a boa arte contemporânea - é estigmatizada como elitista e preconceituosa, dançar na manteiga parece ser o melhor que se oferece aos jovens de boa cabeça. Doente do pé, como se nota, só a artista.
Eu, como todos podem supor, já fui acusado de elitista e preconceituoso quando afirmei que isso não é culturalmente equivalente a isso, apesar de pertencerem à mesma geracao e cultura (o número de vezes que cada um dos vídeos foi assistido indica que eu estou inapelavelmente equivocado), ou que isso é muito distinto disso, apesar do alcance popular de um e de outro.
(*) Ironia das ironias, em Braunschweig há um museu que conta, vejam vocês, com arte de verdade. A menina com cálice de vinho, de Veermer, século XVII. Pintou pouco ele, mas sempre sem manteiga. E fez Arte, com um gigantesco "a". Para quem gosta de história da Arte deve ser um prato cheio sair de um museu com Veermer e ir ver a gorducha escorregar na manteiga.
![]() |
| Reparem que Vermeer preferiu laranjas à manteiga nesta pintura |
Cantinho do Brasil-il-il: Há uns tempos, discutindo isso com um amigo doutorando por aqui, ele me contou que, quando era adolescente, uma instituição abriu um concurso cultural para selecionar as melhores "obras de arte". Um amigo e ele, sem nada melhor pra fazer, tiraram fotos de uma batata que a mãe de um deles havia deixado cozinhando. Sem nenhuma ideia melhor, disseram que a fotografia representava "a fome do povo paraense". Foram selecionados. Ah!, claro, tudo com dinheiro público.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
2 histórias e uma confissão ou São Paulo, Catmandu
Dias atrás, tentando fazer um agrado, mandei um pacote ao Brasil. Calculei as datas para que ele chegasse exatamente no dia em que eu deveria estar no Brasil, mas, como todos sabem, não seria possível estar. Confuso, não?!
Enfim, calculei tudo, dirigi-me ao posto dos Correios e, em rápida conversa com a simpática senhora que me atendeu, fiquei sabendo que o meu planejamento todo não me concederia segurança de que o pacote seria entregue na data que eu gostaria. Indaguei, obviamente, o porquê. "A razão", disse-me ela com aquele olhar de quem fala com um índio com a cara pintada, "é que nao podemos garantir que o Correio do país do destino cumpra a sua parte. Aqui nós garantimos que em dois dias úteis seu pacote já estará a bordo do avião cargueiro com destino ao seu país. Chegando lá, nao temos mais controle sobre isso."
Ato contínuo, me entregou um folder com as informações abaixo:
Vê-se que o Brasil, mesmo com toda a propagando de ser o país do presente, onde tudo funciona, as coisas só melhoram, todos são felizes o tempo todo, etc., etc., etc., perde para países que, além de maior distância geográfica, têm menos relevância política, econômica e sentimental (na falta de melhor palavra).
Ganhamos de apenas um país: China. Isso é bom? Pode até ser, mas não nos esqueçamos que perdemos para "potências" como Cazaquistão, Togo, Malásia, Singapura, Namíbia, Paquistão e Nigéria. Suprema derrota para os hermanos. Empatamos com os nepaleses.
Há tempos que se discute sobre a manutenção do monopólio dos Correios no Brasil. O que eu acho? Nunca pensei seriamente sobre o assunto. Sei que há decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o assunto que eu, mesmo sabendo que devo, ainda nao li (lerei, já digo aos amigos, quando o correio chinês for mais eficiente que o nosso).
Tudo isso para dizer que já faz 16 dias que enviei o pacote, que saiu da Alemanha - como prometido - dois dias depois, chegando no terceiro dia em São Paulo e, até hoje, encontra-se, como me noticia o site, "recebido no agente do país de destino".
Pelo menos ganhamos da China, certo?
*********
Agora que estou tentando levar uma vida mais saudável, tenho pegado o bonde (já disse que nao gosto de escrever tram, certo? Certo.) um pouco mais tarde. Invariavelmente tenho encontrado o carteiro que faz o percurso que passa pelo Instituto. Sujeito estranho, está sempre (não, não exagero!) com um cigarro na boca.
Hoje, como de costume, subi no bonde e lá estava ele, com seu cigarro apagado, olhando para o chão, descuidado das cartas que se amontoavam no carrinho. Chegando perto da estacão em que ambos descemos, vi que ele começou a se agitar, levantou, olhou para os lados, colocou a mão no bolso, olhou o relógio, me encarou e sorriu. Sorri de volta, sem saber o que estava acontecendo. Por alguma razão que desconheço, o bonde parou e as portas nao abriram. Esse senhor comecou a ficar nervoso, mexias nos bolsos a procura de algo. Eu, já neurótico, achei que ele ia fazer alguma coisa contra mim.
Ledo engano. Ele finalmente encontrou seu isqueiro num dos bolsos e, antes mesmo das portas se abrirem, acendeu seu cigarro. Uma velhinha que estava sentada atrás dele começou a gritar desesperada, que ele não poderia fumar ali, que fumar era proibido, que isso afetava a saúde de todos. As portas finalmente se abriram e ele, com o cigarro pendurado nos lábios, se despediu de mim. Quando fui dar o "Tschüss" pude perceber o prazer que aquele homem sentia ao tragar seu cigarro.
Confesso que senti uma ponta de inveja daquele senhor e que, por alguns segundos, pensei em comprar uma carteira de cigarro numa máquina que há na esquina da estacão. Tendo ele um trabalho horrendamente monótono e e pessimamente remunerado, pude sentir que aquela tragada, naquele momento, representava um prazer alcançável apenas para iniciados na arte do tabaco.
**********
A confissão: comprei, já há alguns meses, um libreto com uma coletânea de frases, citações, tiradas, aforismos e o que mais, do Oscar Wilde. O homem era genial, como todos sabem. Logo, quando me ouvirem citar Oscar Wilde, não pensem que perdi meu tempo lendo The Picture of Dorian Gray, De Profundis, The Importance of Being Earnest, The Soul of Man under Socialism, The Critic as Artist. Não, não li. Li apenas a coletânea de pouco mais de 50 páginas...
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Mister Happy e o Carimbo de Aprovação
Já devo ter escrito aqui algumas vezes que, de tempos em tempos, perguntam-me sobre as principais diferenças entre o Brasil e a Alemanha. Sempre respondo com obviedades, platitudes, lugares-comuns e alguma piadinha sobre cerveja.
Geralmente os alemães aceitam aquelas baboseiras como sendo uma análise sociológica e antropológica profunda sobre as distinções entre os dois povos, como se eu fosse uma versão tupiniquim do Bernard Lewis.
Felizmente, meus problemas acabaram. Nunca mais vou precisar responder essa pergunta. Quando me perguntarem sobre as diferenças, vou mandar os alemães assistirem o vídeo abaixo, cujo título fala por si só:
Isso sim é um resumo do que nos diferencia dos alemães (e, a bem da verdade, do resto do mundo). Com uma análise sobre as origens da brasileira, inclusive. Sociológica e antropologicamente profundo. De brinde um estetoscópio pendurado no pescoço, para conferir seriedade médico-científica à análise. Profundíssimo!
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
3 histórias
Já faz algum tempo que não escrevo. A tese tem tomado tempo demais. E a vida tem me consumido energia demais para gastar o que me sobra escrevendo para ninguém ler. Hoje, no entanto, resolvi ressuscitar alguns textos que eu havia começado e, para variar, nunca terminado.
Algumas coisas têm me incomodado, outras me dado tranquilidade para continuar aqui. Tais coisas são, no momento, irrelevantes e eu não escreverei sobre elas. Os mais próximos sabem o que e quem são cada uma delas.
Começo com um texto que eu escrevi há vários meses, logo após aquele sujeito descontrolado ter atropelado vários bicicleteiros do Massa Crítica em Porto Alegre.
Com o fim do inverno, o derretimento da neve e o fim do vento cortante, retirei a minha bicicleta do porão e comecei a pedalar para os lugares que eu preciso ir. Saio de casa cedinho, venho para o Instituto e em 20 minutos estou sentado na minha mesa, esbaforido e ofegante, pronto para começar o dia.
Tudo muito bem. Tudo muito bom.
Há algumas semanas um sociopata atropelou várias pessoas que faziam um protesto pacífico em Porto Alegre pelo uso de mais bicicletas no trânsito. Tema mais do que necessário, ainda mais em uma cidade onde o trânsito na hora do rush tranca e não se chega a lugar algum. Lembro de ter que transitar pela BR101 para ir e voltar do trabalho. Um horror. O planejamento é precário, as condições péssimas, o controle pífio... Enfim, todos sabem a realidade do trânsito nas grandes cidades brasileiras.
Depois desse atropelamento muito se comentou sobre o uso de bicicletas como alternativa aos automóveis. Todos os discursos foram apologéticos, conclamando a todos que abandonassem os carros e começassem a pedalar de lá pra cá. Todos têm meu total apoio. Não poderia concordar mais.Ontem à noite, contudo, tive um pequeno transtorno e fiquei aqui a imaginar o que aconteceria se eu estivesse no Brasil.Como sempre, e ontem não foi diferente, vim de manha cedo para o Instituto. À noite, ali perto das 20 horas, já escuro, resolvi encerrar o dia e voltar pra casa. Qual não foi a minha surpresa quando percebo que estava chovendo.As regras aqui permitem, em algumas situações, que se carregue a bicicleta dentro dos ônibus e bondes (trams). Peguei a minha magrela e entrei no tram. Junto comigo estavam outras pessoas e suas respectivas bicicletas.Fiquei pensando o que ocorreria no Brasil. Poderia eu entrar com a minha bicicleta no ônibus? E como eu faria para passar pela roleta? E no Trensurb, como eu passaria pela catraca? E os outros passageiros que se amontoam pelos corredores, abririam lugar para a minha magrela?Cheguei na estação e percebi que seria impossível pedalar até em casa. Resolvi deixar a bicicleta ali mesmo. Coloquei o cadeado, com a certeza de que a minha bicicleta estaria no mesmo local, nas mesmas condições, no dia seguinte.Não posso deixar de me perguntar se o mesmo ocorreria no Brasil. Sendo bem realista, como a minha bicicleta é uma porcaria, tenho quase certeza de que ninguém ia roubar ela. Mas, sendo ela melhorzinha, não é crível supor que ela seria roubada? Ou algumas de suas partes arrancadas e/ou desmontadas? Eu, sendo realista, acredito que sim.Enfim, escrevo apenas para mostrar que trocar o automóvel pela bicicleta é algo que deve ser estimulado, incentivado e comemorado. Mas não é tão simples, como querem fazer crer os meus amigos no Facebook...
Esse foi o primeiro texto que eu escrevi e não publiquei. Relendo, acredito que ele mereceria mesmo é a lixeira ou o esquecimento. Com a quantidade de acessos do blog, publica-lo aqui é a realização disso...
O segundo texto diz com as diferenças culturais entre pessoas em posição hierárquica superior. Segue:
Hoje chego em casa tendo tido uma experiência bastante distinta. Aliás, distinta até demais.
Fui obrigado a participar de um Seminário sobre Justiça Constitucional em Karlsruhe, cidade onde ficam os principais tribunais superiores da Alemanha. Sim, leitor, você imaginou corretamente: os tribunais superiores não ficam na mesma cidade do Parlamento e da sede do Poder Executivo. Ficam, para falar bem a verdade, quase que do outro lado do país. Bom ou ruim, isso não cabe a mim decidir. Apenas é assim, num reforço ao federalismo alemão.
Continuando: uma das atividades do Seminário era um tour guiado pelos principais pontos histórico-jurídicos da cidade. O guia: um juiz do Bundesgerichtshof. O Bundesgerichtshof é o equivalente ao nosso Superior Tribunal de Justiça. Agora imagine o querido leitor: um ministro do Tribunal Superior pega seu sábado à tarde para passear pelas ruas da cidade, mostrando prédios, ruas, estátuas, pedras e esquinas ao grupo de estudantes desconhecidos.Como diziam os comerciais do 011-1406, mas espere, isso não é tudo: no meio do tour, começou a chover. O ministro ali, puxou um boné da sacola e continuou falando sobre Bismarck tomando água na cabeça. Alguém ofereceu o guarda-chuva, prontamente recusado: „Se eu não trouxe o meu, não devo usar o seu“, disse o simpático ministro.Continuamos o tour, com uma pequena trégua da chuva e chegamos ao seu final, uma esquina onde ficava o Bundesgerichtshof. Ele explicou como era o trabalho dele, quantos processos ele julgava e assim por diante. Ao final, após as palmas e agradecimentos, um dos organizadores começou a agradecer em nome do grupo e fez menção de entregar uma garrafa de vinho alemão (que havia sido comprada na noite anterior pela bagatela de €11,90). O Ministro, visivelmente constrangido, disse: „Vocês já deveriam saber que eu não posso aceitar esse presente. Fiz isso porque acredito na formação das novas gerações. Como funcionário público, não posso aceitar pagamento por algo que julgo ser parte da minha função.“Dessa vez eu puxei o aplauso e fui o último a parar de bater palmas. Não estava acreditando naquilo. Primeiro, um ministro que pega seu tempo para andar na chuva com estudantes e, depois, recusa uma garrada de vinho porcaria por ser funcionário público. Se havia moralidade administrativa, aquilo era o exemplo (devo dizer que um outro assessor do Tribunal Constitucional já havia recusado o mesmo presente no dia anterior, com o mesmo fundamento).Quando coloquei a cabeça no travesseiro, um pensamento me veio de assalto: meu melhor companheiro nos tempos da faculdade era motorista do Tribunal de Justiça. Isso mesmo, ele era motorista de um desembargador. Se esse tipo de regalia existe até para os desembargadores, imaginemos o que têm os Ministros lá em Brasília. Mas, enfim, talvez as realidades sejam diferentes e tais regalias sejam merecidas. Mas não deixa de ser salutar que um agente público, independentemente de sua graduação na escala estatal, recuse uma garrafa de vinho com base na moralidade.
Esse foi o segundo. Sempre que o leio, ou relembro da história, fico um pouco feliz de ter escolhido a Alemanha para estudar e um pouco triste com a realidade brasileira. Eines tages, como costumo dizer aos meus amigos brasileiros que falam alemão.
O terceiro texto, que reproduzo mesmo que não esteja finalizado, diz com uma história que me aconteceu na última vinda pra cá.
Subi no voo POA-GIG já de saco cheio. Afinal, é muito melhor passar os dias com quem se ama do que passa-los na frente de um computador escrevendo um trabalho que não será lido por muita gente.
Depois de tudo certo com o voo, as comissárias (ainda é feio chamá-las de aeromoças?) começaram a servir aquele sanduíche de micro ondas que oferecem com guaraná nos voos curtos.
Umas das passageiras, infelizmente a que esteva sentada na minha frente, começou a gritar (não é exagero meu!) que estava nauseada por causa do cheiro do presunto e que as comissárias deveriam parar de servir aquilo para que ela não vomitasse. Uma delas, com um sorriso, perguntou: „Minha senhora, nos temos quase 150 pessoas nesse voo. A senhora quer que todos fiquem sem comer?“.
A passageira – gaúcha – nem piscou e lascou: „não quero nem saber. Tô passando mal... Tira esse negócio da minha frente. Ninguém precisa comer isso... Parem de servir essa coisa horrorosa!!“Outras duas comissárias (aeromoças?) se aproximaram e tentaram convencer a primadonna do sanduíche. Nada feito. Uma senhora ao lado dela, deu de ombros, abriu seu sanduíche e com, no máximo, 5 mordidas ele desapareceu. Do outro lado, um sujeito tentava acalmar ela com argumentos médicos sobre a comida e as náuseas. E eu ali, atrás dela, pensando se o egoísmo poderia ser considerado um tipo penal. De lege ferenda, sugiro que sim.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Sermão ou Bom ladrão
Escreve-me um ex-aluno, que há anos não vejo e do qual não tenho notícias:
"Prof tu foi meu prof (...) e eu sempre gostava das tuas aulas... Me formei BACHAREL em DIREITO em 2010 e ainda estou batalhando pela OAB. Estava firme de que o STJ ia declarar a inconstitucionalidade desse exame que é uma verdadeira forma de manter bons advogados fora do mercado de trabalho, reservando os clientes para os mais velhos.
Pensei bastante e conversei com meu pai que me sugeriu procurar outras formas de usar meu título de BACHAREL em DIREITO e sempre tive vontade de ser ou juiz ou professor ou promotor... Por isso te escrevo, para saber como é que eu faço para ser professor na faculdade. Vou tentar os concursos pra juiz também mas por enquanto isso quero ser professor e para isso não preciso de OAB nem de concursos de magistratura, já que sou BACHAREL em DIREITO.
Quais as dicas que tu dá pra quem quer ser professor de DIREITO? Eu sempre gostei de estudar e de ler e de falar...
Obrigado professor.
Abs"
Isso me lembrou de uma historieta que se conta do Ruy Barbosa.
Um aluno questionou como faria para dominar o vernáculo com a maestria que ele tinha. A Águia de Haia mandou-lhe ler a obra do Pe. Vieira. O estudante, ainda não satisfeito, disse que já havia lido o Pe. Vieira e gostaria de saber como o mestre Ruy havia feito para dominar a inculta e bela. Ruy Barbosa, impassível, disse: faça como eu fiz, continue a ler o Pe. Vieira. O estudante, nem um pouco satisfeito com a resposta, interpelou o Mestre: "Prof. Ruy Barbosa, o senhor não está entendendo: Eu quero saber como faço para usar o português como o senhor". Ruy Barbosa calmamente responde: "Nunca pare de ler o Pe. Vieira".
Dicas, meu caro ex-aluno? Sinceramente não sei o "caminho das pedras".
Mas sugiro continuar estudando. E depois disso, continuar estudando. E nunca parar de estudar. E quando sobrar um tempo, leia os Sermões do Pe. Vieira. Ser-te-ão de enorme valia. E, se no meio disso tudo tu ainda tiver um tempinho, passa na prova da OAB.
Isso me levou a pensar sobre a imagem do professor universitário nas faculdades de direito que formam esses BACHARÉIS em DIREITO. Sou o único?!
Update: Meu ídolo Bruno Aleixo avisou-me que, também ele, é apreciador do estilo do Pe. Vieira.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Continuarei.
Recebi o seguinte comentário em um post bastante antigo:
Please tell me that youre going to keep this up! Its so great and so important. I cant wait to read far more from you. I just feel like you know so substantially and know how to make people listen to what you've got to say. This weblog is just also cool to be missed. Excellent stuff, really. Please, PLEASE keep it up!
O blogspot me deu a opção de marcar como spam. Tá louco, blogspot?
Esse é uma opinião séria, real e que leva em conta tudo que eu tenho pra dizer.
Obrigado, comentarista. Thank you very much.
domingo, 9 de outubro de 2011
Flaschen Peter
Há um velho mendigo aqui em Heidelberg conhecido por Flaschen Peter (Pedro Garrafa, numa tradução livre). Ele frequenta todas as palestras gratuitas oferecidas pela faculdade de direito, de filosofia e de história (e não são poucas).
Já o encontrei em muitas, e ele sempre lá, fedendo, com suas roupas sujas e rasgadas.
Dias atrás resolvi perguntar para um conhecido se ele sabia quem era aquele sujeito e porque ele frequentava as palestras se ele não entendia nada.
Ele me olhou e com um riso cínico respondeu: “Pedrinho, as aparências enganam...”. E saiu caminhando. Depois me mandou um email explicando. Sem saco pra traduzir o email, faço um pequeno resumo: esse sujeito, o Flaschen Peter, era um aluno brilhante da faculdade de história e filosofia e se formou com todas as láureas possíveis. Depois de um tempo, recebeu um convite para fazer doutorado com um respeitado professor de história das ideias e história da filosofia. Ele se recusou e disse que preferia manter a sua liberdade.
Hoje ele vive em total liberdade acadêmica, lendo o que quer (não poucas vezes o encontrei na biblioteca central), frequentando as palestras que tem interesse, recolhendo garrafas para poder comer, dormindo em bancos de praça e tomando banho em um chafariz na frente do Deutsche Bank.
Nunca o vi fazendo perguntas ou anotações, mas reza a lenda que há uns anos ele humilhou um professor que deu dados errados sobre a história da Alemanha no baixo medievo. Vai saber...
Cansei. Tô cansadinho.
Aí me escreve um amigo:
“Pedrinho, por que tu não escreve mais? Cansou? Teus dois leitores sentem a tua falta... ”
Respondi a ele então, e respondo aqui agora: cansei. Há tempos que venho pensando nisso.
Estou cansado. Passo os dias fazendo a mesma coisa há dois anos. Venho para o mesmo lugar todo santo dia há nove meses.
“As coisas são lentas” alertava-me um professor antes de eu vir pra cá. Mas tão lentas assim, porra?! Não dá pra acelerar só um pouquinho?
Deixo a construção de blogs para as pessoas que sabem escrever; ou aquelas que só querem derramar no papel a sua ignorância; ou, melhor, aquelas que realmente acreditam que têm algo a dizer.
Estou cansado. Passo os dias fazendo a mesma coisa há dois anos. Venho para o mesmo lugar todo santo dia há nove meses.
“As coisas são lentas” alertava-me um professor antes de eu vir pra cá. Mas tão lentas assim, porra?! Não dá pra acelerar só um pouquinho?
Deixo a construção de blogs para as pessoas que sabem escrever; ou aquelas que só querem derramar no papel a sua ignorância; ou, melhor, aquelas que realmente acreditam que têm algo a dizer.
Eu não tenho nada a dizer. Só que cansei.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Entre autonomia, solidão, liberdade e individualismo
Lisbon Revisited
Álvaro de Campos (F.P.)
1923
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)—
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul -o mesmo da minha infância
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ô mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Estarei transferindo para estar podendo melhor lhe atender...
Conversa verídica agora há pouco:
Telefone toca.
Pedrinho: Alô.
Voz: Olá, Sr. Pedrinho, o senhor teria alguns minutos do seu tempo?
P.: Sim, claro. Sobre o que seria?
V.: Nosso banco de dados nos informa que o senhor costuma fazer ligações para o exterior.
P.: Sim. Para o Brasil.
V.: O senhor faz as suas ligações internacionais primariamente para o Brasil. Correto?
P.: Sim. Corretíssimo. Para o Brasil. E então, qual o motivo desta ligação?
V.: Eu ligo para lhe oferecer um novo pacote de serviços da o2 [empresa de telefone], pelo qual as suas ligações para o exterior custarão apenas 19 centavos por minuto. O senhor teria interesse?
P.: Claro. Teria bastante interesse.
V.: Ótimo. O senhor terá direito a cinco números cadastrados, para os quais o senhor ligará por 19 centavos o minuto, num custo máximo de 2,99 euros. Caso a ligação passe deste valor, o resto não será cobrado.
P. (já imaginando fazer ligações intermináveis): Ótimo. Gostaria de cadastrar 3 telefones fixos e 2 celulares, todos com prefixo 054, no Brasil.
V.: Brasil? O senhor disse Brasil, sr. Pedrinho?
P.: Sim. Brasil. O senhor sabe que minhas ligações internacionais são primariamente para o Brasil, para usar as suas próprias palavras.
V.: Um minuto, por favor.
Passam-se alguns segundos e o sujeito retorna.
V.: Caro sr. Pedrinho, infelizmente o Brasil ainda não está na lista de países disponíveis para a promoção. O sr. ainda teria interesse em cadastrar os números?
P.: Mas os números são do Brasil. Teria alguma vantagem em cadastra-los?
V.: Nao que eu consiga imaginar.
P.: Então, porque o sr. me ligou?
V.: Para lhe oferecer os benefícios da promoção, já que o sr. costuma ligar para o Brasil e isto é considerado, como o senhor sabe, uma ligação internacional.
P.: Sim, ligo para o exterior. Para o Brasil, como o seu sistema pode lhe informar. Mas se a promoção não se aplica ao Brasil e consequentemente nao se aplica a mim, por que estamos tendo essa conversa?
V.: Em nome da o2, desejamos um confortável resto de quarta-feira. Ligaremos assim que o Brasil for incluído na lista de países.
P.: Por favor, não me liguem nunca mais.
V.: O sr. quer cancelar a sua linha?
P.: Não. Obviamente que não. Em momento algum eu disse isso. Eu não quero mais ser importunado por ligações sem sentido como essa.
V.: Desculpe, sr. Pedrinho, mas nós ligamos para lhe oferecer um benefício. Essa ligacao tem, obviamente, um sentido e uma boa intenção.
P.: Que nao se aplica a mim. Ou?
V.: Hmmm. Hmmm... O sistema deve ter se equivocado. O sr. gostaria de fazer uma reclamação?
P.: Sim.
V.: Isso levará cerca de 10 minutos.
P.: Então não. Vielen Dank.
V.: Um bom resto de dia para o senhor.
V.: Um bom resto de dia para o senhor.
Desligo. A única coisa que consegui pensar foi naquele policial que entrava nos sketchs do Monty Python quando a coisa começa a ficar non-sense demais.
O Mundo é um Moinho
A esperança, já disse aquele filósofo de bigode avantajado, é o pior dos males. Quando nos damos conta, a vida nos traz as piores surpresas. No meio das ruins há, obviamente, algumas boas. Que serão novamente seguidas de ruins. Esse mundo, tão mesquinho, reduz nossas ilusões a pó.
O que importa, diriam alguns, é não desanimar e seguir sempre em frente.
O vídeo abaixo é um extrato de um documentário sobre o sambista Cartola e a relação conflituosa com o pai. Depois de 40 anos (sim!) eles se reencontram. O filho, ainda um pouco envergonhado, pergunta ao pai qual o samba que ele gostaria de ouvir.
O pai, depois de quatro décadas, em uma primeira análise escolhe provavelmente o samba menos apropriado para o momento:
Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés
Quarenta anos depois e o pai pede ao filho que cante:
Preste atenção, o mundo é um moinhoVai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó
(...)
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés
Pensando melhor, não existe samba mais apropriado. Fico cá imaginando a dor de um pai depois de perceber que passou boa parte da vida longe do filho: o mundo, esse moinho, triturou mesmo seus sonhos.
Para o Cartola, que, depois de se consagrar como sambista da Mangueira nas décadas de 20 e 30, virou lavador de carros e só voltou ao samba graças ao Stanislaw Ponte Preta, deve ter percebido, ali ao lado do pai cantando aquele samba, que estava à beira do abismo, abismo que cavou com os próprios pés.
A única conclusão que nos resta é concordar com o aquele maluco e balançar a cabeça repetindo que a esperança, no homem, na vida, na humanidade, no futuro, ou em qualquer outra coisa, é, de fato, o pior dos males. A esperança em si mesmo, bem, essa pode ser redentora se de antemão soubermos que vamos fracassar ou ridícula se realmente acreditarmos que vamos "fazer a diferença"...
terça-feira, 8 de março de 2011
Obrigado pelas Mortes
Ainda sobre o post anterior, interessante saber que a Suprema Corte americana decidiu há apenas alguns dias o caso da minúscula e irrelevante Igreja de Westboro.
Para os que não sabem, faco um pequeno resumo: trata-se de uma irrelevantíssima igreja americana, fundada e mantida por um fundamentalista que mantém um site chamado (já traduzido) deusodeiabichas.com. A palavra utilizada é “fags”, que eu traduzi por bichas; pode ser veado também. O que importa é que se trata de um termo pejorativo para designar os homossexuais masculinos.
O site da Igreja é esse mesmo. Não satisfeito com esse truque, o pastor e seus pouquíssimos fiéis decidiram apelar para uma tática um tanto mais espalhafatosa, para dizer o mínimo. Começaram a fazer protestos e demonstrações em funerais. Isso mesmo, iam aos funerais com placas, bandeiras e megafones, dizendo que as mortes eram o resultado de uma praga divina que assomava os Estado Unidos em função dos inúmeros pecados, em especial a tolerância com a homossexualidade. Enfim, coisa de maluco fundamentalista.
Eles forma processados pela família de um militar americano que havia sido morto no Iraque e em cujo funeral o pastor e os fiéias foram fazer a sua pregação absurda. O processo foi julgado procedente para a família do militar morto e a Igreja foi condenada a pagar uma indenização milionária.
O processo foi subindo as instâncias até chegar na Supreme Court por uma razao muito sensível do direito constitucional americano: a liberdade de expressao da primeira emenda, o que eles chama de freedom of speech.
(Antes que se passe para a decisao da Suprema Corte, é interessante notar que um dos últimos protestos feitos pela Igreja foi no funeral de uma menina de 9 anos (!!!) que havia sido morta a tiros, com placas com dizeres de que ela estaria melhor morta do que vivendo num país como os Estados Unidos que permitia todos aqueles pecados. Ponto. Parágrafo.)
A Suprema Corte, por oito votos a um, decidiu que, sim, os protestos e manifestações da Igreja estavam protegidos pela liberdade de expressao e que a Igreja não poderia ser condenada a pagar indenizações em função da exteriorizacao de uma opiniao.
Uma das partes mais interessantes é o parágrafo final do Chief Justice (equivalente ao nosso Ministro do STF) Roberts, que foi o relator do caso:
Speech is powerful. It can stir people to action, move them to tears of both joy and sorrow, and—as it did here— inflict great pain. On the facts before us, we cannot react to that pain by punishing the speaker. As a Nation we have chosen a different course—to protect even hurtful speech on public issues to ensure that we do not stifle public debate.
(Tradução Livre: O discurso é poderoso. Ele pode levar as pessoas a agir, causar lágrimas tanto de alegria quanto de tristeza e - como é o caso - causar muita dor. Nos fatos que temos presentes, nao podemos reagir à dor punindo o emissor do discurso. Como nação nós decidimos um caminho diferente - o de proteger até mesmo o discurso sobre questões públicas que tragam dor, para garantir que não se sufoque o debate público.)
Obviamente que o caso é complexo, conflituoso e polêmico. Alguns fundamentalistas religiosos desrespeitam claramente a dor das outras pessoas para defender uma bandeira esdrúxula. Mas, veja-se bem, isso não estava em jogo para o Tribunal. A discussão toda era saber se a liberdade de expressão valia também para casos extremos como os descritos nos processos contra a Igreja.
O que eu penso disso tudo? Ainda não sei... Sou um árduo defensor da liberdade, como todos sabem e acho mesmo que a expressão deve ser livre, independentemente das sensibilidades feridas (isso valendo muito especialmente para políticos e personalidades públicas). Mesmo assim, tendo a achar que “atacar” um velório de uma menina de 9 anos já é demais. Ou não.
-> O título é uma tradução de um dos cartazes mais utilizados pela dita Igreja. Pois é...
Para os que têm tempo e interesse o caso é Snyder vs. Phelps.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
E se não fosse o Direito...
... quem sabe hoje em dia eu seria do Bicho.
Há uns anos, quando eu ainda exercia uma profissão respeitável, tive um problema. A aula versava sobre liberdades públicas e, em especial, liberdade de expressão e o conflito entre a liberdade artística e direitos individuais.
Citei o famoso caso Mephisto do Tribunal Constitucional alemão e lancei mão de algumas perguntas. Já encerrando a aula, fiz a besteira de cantarolar o samba "O Bingo" do maior dos sambistas de duplo sentido, Dicró:
Vou fazer um bingo
Lá na casa da vovó
O prêmio é minha sogra
Sai numa pedra só
Quem ganhou tem que levar
Leva essa droga pra lá
(...)
Na terceira pedra
O prêmio de consolação
Leva um criolo bicha
E uma branca sapatão
Quem ganhou tem que levar
Leva essa droga pra lá
Vou fazer um bingo
Lá na casa da vovó
O prêmio é minha sogra
Sai numa pedra só
Quem ganhou tem que levar
Leva essa droga pra lá
(...)
Na terceira pedra
O prêmio de consolação
Leva um criolo bicha
E uma branca sapatão
Quem ganhou tem que levar
Leva essa droga pra lá
A segunda estrofe, como se pode supor, foi a que me trouxe problemas. Uma aluna, muito progressista, com a cabeça aberta – aberta o suficiente para que as ideais não permanecessem muito tempo nela – me xingou, disse que ia me denunciar para a direção como racista, preconceituoso, machista e estúpido.
Eu, atônito, não consegui responder nada, a não ser balbuciar: „mas é a letra de um samba conhecido, não fui eu que escrevi...“ De nada adiantou. Fui chamado pelo diretor, que me pediu que eu, da próxima vez, permanecesse nos casos dos Tribunais e não mais cantarolasse em aula. Tudo certo. Nunca mais cantei e, muito provavelmente, nunca mais cantarei.
Eu, atônito, não consegui responder nada, a não ser balbuciar: „mas é a letra de um samba conhecido, não fui eu que escrevi...“ De nada adiantou. Fui chamado pelo diretor, que me pediu que eu, da próxima vez, permanecesse nos casos dos Tribunais e não mais cantarolasse em aula. Tudo certo. Nunca mais cantei e, muito provavelmente, nunca mais cantarei.
Essa semana, depois de receber a dica de um amigo, baixei (legalmente) o novo disco do Marcelo D2, com regravacoes do „mestre da malandragem“, Bezerra da Silva. A primeira coisa que me veio à mente foi a imagem daquela aluna, feliz, lesta e faceira, sambando em um show do Marcelo D2. Tudo bem, tudo bom, até a segunda ouvida, quando eu realmente prestei atenção nas letras.
Pois bem. A segunda imagem que me veio à mente foi dessa mesma aluna esperando na porta do Ministério Público, com um CD na mão e uma notícia-crime na outra, querendo prender o cantor, o finado Bezerra da Silva, o produtor do CD, a gravadora e todo mundo mais que tivesse qualquer coisa a ver com aquele „horror“.
Não me entendam mal. Ela não estaria reclamando da qualidade artística, que agrada até aos que não são afeitos ao samba. O CD é muito bom, bem produzido e, estranhamente, Marcelo D2 convence como sambista.
A reclamação dela seria em função das letras, onde é possível verificar:
1) uso de termos racistas,
1) uso de termos racistas,
2) incentivo à violência doméstica,
3) incentivo a violência contra os menos favorecidos,
4) uso de expressões machistas,
5) uso de expressões sexistas,
5) incentivo ao uso de drogas,
6) utilização de propriedade alheia,
7) porte irregular de arma de fogo,
8) discriminação religiosa,
9) apologia dos jogos de azar, e mais tantas outras.
Alguns exemplos podem deixar mais clara a razão da revolta dessa minha ex-aluna. Na música A Semente, um vizinho joga uma semente estranha propriedade alheia e lá mesmo cresce um "tremendo matagal" e o coitado do dono do terreno é preso. Um horror.
Na canção Minha sogra parece sapatão há uma caracterização extremamente racista e sexista da sogra do cantor, algo inaceitável em uma sociedade que pretende manter a liberdade de opção sexual aos cidadãos. A sogra dele "bebe cachaça e fuma charuto, tem bigode e cabelo no peito" e ele afirma que "não sei não, minha sogra parece sapatão". Além disso, para fixar a ideia de que ela é uma homossexual feminina, ele afirma que „quando o malandro toca nela é aquele alvoroço, Ela faz assim para o esperto qual é a sua seu moço, Da fruta que você gosta eu como até o caroço.“
No samba Bicho Feroz, o protagonista é sempre visto com um revolver na mão e por isso "é um bicho feroz". Quando está desarmado, aqui o preconceito fica claríssimo, ele "anda rebolando", numa clara inferência ao homossexualismo do portador da arma de fogo.
Numa outra canção, o sambista afirma que "se não fosse o samba quem sabe hoje em dia eu seria do bicho", fazendo hialina apologia ao jogo de azar conhecido como "Jogo do Bicho" que tanto retira dinheiro das pessoas carentes. Veja-se que horror esse samba!!!
Num samba que pode ser caracterizado como de "crítica social", o sambista afirma que o Candidato caô caô fez uso de substância entorpecente ("até bagulho fumou") e em outra, afirma que preparará seu „cigarrinho de artista“, mas não fará uso da substância ao declarar que "Vou apertar, mas não vou acender agora..."
Em outra crítica social versada em forma de samba, há uma verdadeira enormidade criminal. O samba caracteriza o denominado Malandro rife e afirma que
Quando pinta um safado no seu morro
Assaltando operario botando pra frente
Ele mesmo arrepia o tremendo canalha
e depois enterra como indigente
(Update: me informa um amigo que há um complemento. Depois disso ainda aparece um "ele é decente!").
Assaltando operario botando pra frente
Ele mesmo arrepia o tremendo canalha
e depois enterra como indigente
(Update: me informa um amigo que há um complemento. Depois disso ainda aparece um "ele é decente!").
Noutro samba, chamado Pai Véio 171, há uma descrição caricata de pessoas que exploram as crencas das outras pessoas. Uma pena a utilização do samba para fazer graca da religião alheia. Aquela aluna, nesse ponto, deve estar enfartando...
A pior delas, contudo, é o samba Quem usa antena é televisão. Veja-se a letra:
Lá na minha bocada
A crioula do Chico
Pedia socorro
A crioula do Chico
Pedia socorro
Chorava, gemia
O coro comia
A nega apanhava
Que nem um ladrão
Isso aconteceu
Em uma madrugada
De segunda-feira
O Chico voltava
Lá da gafieira
E flagrou um esperto
No seu barracão...
Ele disse
Que quem usa antena
É televisão
E só estava
Cobrando da nega
Essa vacilação...
(…)
Eh! E tem mais o seguinte
Vamos botar logo
As cartas mesa
Eu fico no barraco
E você leva a nega
Essa piranha brava
Eu não quero mais não
Aqui pode-se dizer que há uma junção de todos os outros: racismo, violência doméstica, abuso, machismo, misoginia, linguagem ofensiva às mulheres, etc, etc.
O coro comia
A nega apanhava
Que nem um ladrão
Isso aconteceu
Em uma madrugada
De segunda-feira
O Chico voltava
Lá da gafieira
E flagrou um esperto
No seu barracão...
Ele disse
Que quem usa antena
É televisão
E só estava
Cobrando da nega
Essa vacilação...
(…)
Eh! E tem mais o seguinte
Vamos botar logo
As cartas mesa
Eu fico no barraco
E você leva a nega
Essa piranha brava
Eu não quero mais não
Aqui pode-se dizer que há uma junção de todos os outros: racismo, violência doméstica, abuso, machismo, misoginia, linguagem ofensiva às mulheres, etc, etc.
A esta altura, a aluna já morreu na porta do MP, ainda sem entender como as pessoas podem ser tão insensíveis com as causas da nossa sociedade. Ela, uma progressista que só quer o bem de todos, é que tem que lutar sozinha contra esses abusos cometidos por um sambista...
Moral: Até onde vão os limites da liberdade artística? Essa é uma bela questão. Uma coisa é óbvia: eles vão muito além daqueles estipulados pelo politicamente correto...
* * * * * *
Aqui uma bela crônica sobre as barbaridades que o politicamente correto pode fazer com a nossa literatura.
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