quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Uma aula de violino não dói...

Um fantasma ronda a educação.

A história é, talvez, conhecida. Caso não seja, faço um resumo: Amy Chua, uma professora de direito comercial internacional da faculdade de direito de Yale, nos EUA, talvez a mais respeitada faculdade de direito do mundo, publicou um livro contando a sua experiência como mãe de duas meninas.
O livro se chama Battle Hymn of the Tiger Mother , algo como, Hino de Guerra de uma mãe tigre (tigresa?). Enfim, a tradução é o de menos. O que importa é que ela defende o seu modo de educar, baseado na forma como ela mesmo foi educada. Chua, filha de chineses que imigraram para os EUA, nasceu e cresceu como americana, mas, como contou, foi educada em padrões rigidamente asiáticos. Depois que teve suas filhas, com o também professor de Yale Jed Rubenfeld, um judeu americano, ela colocou em prática o que a memória lhe trazia da sua educação.
O livro, que ela classifica como um livro de Memórias, traz as experiências e toda a rigidez imposta às duas filhas.
Entre as incontáveis regras, as filhas NÃO podiam:
- dormir na casa de amigas
- participar de uma peca teatral no colégio
- reclamar que não podem participar de uma peca de teatro no colégio
- assistir TV ou jogar jogos no computador
- escolher suas atividades extracurriculares
- ter notas menores do que o conceito A
- não ser a melhor da turma, exceção feita à educação física e artística
- tocar outro instrumento que não fosse piano ou violino
- não tocar piano ou violino
Para os nossos ouvidos ocidentais, acostumados com toda a pedagogia do carinho e da ausência de limites, ou com toda a doutrinação de um Paulo Freire, por exemplo, isso mais parece um campo de treinamento do melhor exército do mundo do que uma família americana normal de classe média alta.
A professora Chua ainda teve o peito de publicar um artigo no Wall Street Journal intitulado "Porque as mães chineses são melhores". (leitura é recomendada).
Obviamente que o mundo quase veio abaixo quando as pedagogas, psicólogas e educadoras, que sabem melhor do que os próprios pais como educar os filhos dos outros, ficaram estarrecidas e disseram que ela não educou as filhas, mas sim torturou, ceifou, violou a liberdade, a criatividade, a jovialidade, etc, etc.
Outros educadores trouxeram pesquisas afirmando que uma educação exigente, com metas estipuladas e limites claros, ajuda as crianças no futuro que saberão lidar melhor com as responsabilidades e os problemas que a vida adulta exige e oferece.
A filha mais velha de Chua publicou um artigo no New York Post chamado Porque eu amo a minha exigente mãe chinesa. Disse que ela só se beneficiou da educação que teve e, final de Hollywood, "se morresse hoje, saberia que viveu a vida sempre a 110% e que agradecia sua mãe por isso."
Morrendo ou não morrendo, o fato objetivo é que as filhas de Chua serão aceitas nas melhores universidades americanas. E, isso, lá pra eles, já é um passo muito bem dado para o que a sociedade convencionou chamar de sucesso.
Na Alemanha, país que tem uma educação em declínio, as pedagogas querem queimar o livro de Chua em praça pública. "Um desservico à educação" é o mínimo que as educadoras contrárias às técnicas de Chua gritam. Outras, mais moderadas, dizem que ela baseou a educação em critérios objetivos bobinhos, como provas e sucesso nas notas. Esqueceu-se, dizem ela, que a vida é muito mais do que isso.
Outros dizem que os pais alemães poderiam enrijecer um pouco a educação dos filhos (sem perder a ternura, jamás!) para que as geracoes futuras continuem mantendo o país na elite mundial.
Eu, como não tenho filhos, não tenho opinião sobre isso. Quando os tiver, contudo, se a minha mulher permitr (todos sabem que eu sou muito bem mandado!) ficaria muito feliz se pudesse fazer algo parecido, com algumas liberdades a mais, mas também bastante exigente.
Até lá...
...pedagogas, psicólogas e educadoras do mundo, uni-vos!

Brasil...

... na mídia.
Enquanto todos nós nos esforçamos para que a imagem do Brasil no exterior melhore, esquecemos do que realmente importa para a humanidade e do que realmente interessa aos gringos no Brasil.
Hoje pela manhã, durante o café com o pessoal do Instituto, um deles, muito preocupado com o futuro do planeta, perguntou qual a minha opinião sobre a construção da usina de Belo Monte e sobre as centenas de milhares de vidas (de onde ele tirou esse número eu não sei) que serão perdidas com a inundação.

Antes que eu pudesse responder, outro, mais antenado com a realidade mundial, trouxe o computador com o vídeo da frentista "brasileira".

Desnecessário dizer que a conversa sobre Belo Monte se transformou na conversa sobre os belos montes das brasileiras. E, claro, as centenas de milhares de vidas que eles podem salvar...

Aqui a reportagem do respeitadíssimo tablóide (acento?!) Das Bild.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Vai meu irmão...

... pega esse avião!
Pede perdão/ Pela duração dessa temporada/ Mas não diga nada/ Que me viu chorando/
E pros da pesada/ Diz que vou levando/ Vê como é que anda/ Aquela vida à toa/
E se puder me manda/ Uma notícia boa

sábado, 22 de janeiro de 2011

The Clooney

Na esquina de casa há um restaurante italiano. O dono e chef é um italiano, vindo diretamente da Calabria, que tem um bigode de deixar um hipotético filho de Friedrich Nietzsche com Olívio Dutra no chinelo.
As comidas são preparadas na frente do freguês, com aquele bigode flutuando perigosamente acima das labaredas das bocas do fogão. Ele, confirmando o estereótipo, fala alto, muito alto, mexe os braços, é simpático, fica furioso por nada, passa cantadas nas mulheres. Enfim, tudo aquilo que os alemães pensam que um italiano deve ser.
O melhor de tudo é que, entre um prato de spaghetti carbonara e uma Pizza Fantasia ele sai à rua para um cigarro. Geralmente quando eu estou voltando para casa do "trabalho" (podem rir...) eu cruzo por ele e grito "Ciao". Ele geralmente responde com um "Salve" e continua pitando.
Como as leitoras podem imaginar, alguém que tenha um bigode desse tamanho não pode ser considerado um homem charmoso. Ele, em particular, nao o é. O bigode possui três cores que variam conforme a distância do fogão. Um dia ainda crio uma teoria sobre isso...
Dias atrás, com muita fome, ofereci meu tradicional cumprimento ao chef. Ele, com um sorriso e bastante entusiasmado, gritou Ciao, giovane!. Parei na hora e fiz um pedido ali mesmo, no meio da rua. Ele pitou mais uma vez, jogou a bituca na rua e entrou. Obviamente não lavou as mãos, coçou o bigode umas três vezes enquanto agarrava os ingredientes com a mão para preparar a minha pizza, gritou com a garçonete e, claro, deu uma piscadela pra loira que estava esperando a massa dela.
Tudo bem, tudo bom. Higiene não é algo que me preocupe muito.
Pronta a pizza, recebo a conta (impressionantes €5,80 por uma pizza grande). Pago, agradeço e caminho pra casa. Ao chegar em casa tenho uma pequena surpresa.
Na caixa há um desenho. Olhei, olhei e percebi que o pizzaiolo da caixa da pizza é a cara do George Clooney. Não resisti e desenhei um bigode condizente...
PS - O título é uma homenagem ao insuperável Howard Wolowitz.

And now...

... for something completely different.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Filosofia gostosa

Sem vontade de estudar e de ler alguma coisa, decidi matar o tempo assistindo a algum vídeo no YouTube.
Primeira coisa que me veio a mente, principalmente em função da solidão que impera nesta minha Temporada Alemã, foi pornografia. Mesmo sabendo que o Youtube nao autoriza a publicação de vídeos eróticos, no espaço destinado à pesquisa de vídeos digitei "mulher gostosa" e, em questão de meio segundo, abriu o vídeo abaixo.



Traduzo as partes que interessam ao post (0:55 - 2:02): Hannah Arendt: "Eu sinto que, antes, eu preciso protestar. Eu não pertenço ao círculo dos filósofos. Minha profissão, se é que se pode falar assim, é a teoria política.
Eu não me sinto, de forma alguma, uma filósofa. Eu também não fui, eu acredito que não, admitida no círculo dos filósofos, como o senhor amigavelmente descreve.
(...)
E, na minha opinião, eu não sou uma filósofa. Eu estudei filosofia, como o senhor sabe, mas isso não significa que eu permaneci na filosofia."
* * *

Esse início da entrevista com Hannah Arendt trouxe a recordação de dois colegas do tempo da faculdade que eram filósofos. Sim, eles se apresentavam como filósofos (do direito).
Tinham lido alguma coisa obrigatória para a disciplina de filosofia do direito, mais algumas páginas das bobagem do Rousseau, dois ou três aforismas do Nietzsche, et voilà, eram filósofos. Mais tarde, já formado, conheci outros, ainda mais petulantes, que, antes mesmo de terem lido qualquer coisa, já se consideravam filósofos: "ô, professor, o meu esquema é pensar o direito, não fazer dogmática. Isso (sic) eu deixo para os menos inteligentes".
É incrível ver que uma Hannah Arendt, com a sua estatura intelectual, tem a humildade de dizer que nao se considera uma filósofa. Enquanto uns bobinhos - que nem mais tão jovens são -, se julgam filósofos por terem lido algumas centenas de páginas. Mais triste ainda são aqueles que, por terem um diploma de bacharel em filosofia, se apresentam como filósofos. Tive a oportunidade de conhecer alguns e, contrariamente a Hannah Arendt, nunca desenvolveram um corpo teórico próprio ou sequer publicaram alguma coisa relevante. Mesmo assim, para a "sociedade", sao considerados - e, pior, se consideram - filósofos.
O mais triste é que, por não terem a capacidade intelectual de uma Hannah Arendt, e por não terem lido o que se deve ler, morrerão se considerando filósofos.
PS - Não há como nao ficar triste, ou chateado consigo mesmo, vendo este vídeo. Perguntada pela razão de ter estudado filosofia, ela responde que não sabe exatamente, mas que, provavelmente, foi em funcão das leituras que comecou a fazer aos 14 (!) anos: Kant, Jaspers, Kierkegaard e os clássicos gregos, obviamente no original.
PPS - Bons tempos em que filósofos podiam fumar durante entrevistas na TV. Peraí, como assim filósofos na TV?
Nota mental: se algum dia eu for convidado para dar aula de "filosofia do direito", primeiro, educadamente, recuso a oferta; segundo, se me obrigarem, passarei o semestre inteiro passando o início deste vídeo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ô loco, meu!

Maravilhas do mundo moderno. Estava procurando uma tradução para um parágrafo do Goethe, que eu teimava em ler e não entender, quando me deparei com esta pérola.



Fausto Silva apresenta Goethe

FS - E agora, exatamente às dezoito horas e trinta minutos, nós vamos trazer aquele que é um grande ícone da poesia mundial! Ééé, bicho, tá pensando o quê? Não é brincadeira o que esse cara faz, não. Ele é considerado por muitos o maior poeta da história da Alemanha! Diretamente da corte de Weimar para a sua telinha, vem aí o glorioso Johann Wolfgang von Goethe aqui no “Domingão”!

(Entra JWG, um pouco assustado com a gritaria do público.)

FS – Grande garoto! Essa ferinha aqui foi quem escreveu aquela história do cara que faz um pacto com o diabo -e o cara era meu xará, é brincadeira? O Brasil todo aplaude…

JWG, timidamente O sprich mir nicht von jener bunten Menge/ Bei deren Anblick uns der Geist entflieht…

FS (interrompendo) – Esse é o super-Goethe! Monstro sagrado da teledramaturgia alemã! Grande figura humana, tanto no pessoal quanto no profissional!

JWGKennst du das Land wo die Zitronen blühn?

FS – Orra, se conheço, meu. Morei cinco anos em Bebedouro…

(O poeta faz “nein-nein” com o indicador, vira-se e aponta para Caçulinha, que começa a tocar o lied de Schubert. JWG, na sua melhor voz de Dietrich Fischer-Dieskau, manda ver:)

JWG“Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn/Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn…”

FS – Ô loco! Concertos pra juventude, galera! Quem sabe faz ao vivo!

"E o cara era meu xará" 
Sensacional!!!

PS - Para quem tiver interesse, pode-se ouvir (é obséquio esquecer a imagem) o tenor mencionado no texto, Dietrich Fischer-Dieskau, cantando Das Lied im Grünen, do Franz Schubert. 

domingo, 13 de junho de 2010

Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow

Na peça Macbeth, Shakespeare, numa de suas estrofes mais famosas, descreve o que ele entende seja a vida. Pela voz de Macbeth, depois de ser avisado por Seyton que Lady Macbeth estava morta, declama:  a vida “é um conto, narrado por um idiota, cheio de som e de fúria, sem sentido algum"  (Ato 5, Cena 5).  

Como já contei aqui, fui obrigado a ler isso bem cedo. Meu pessimismo, como se vê, não é gratuito. Vem das leituras que fiz e que fui obrigado a fazer. Mas, principalmente, da miséria com a qual sou obrigado – jamais escolhi vivenciar isso – a conviver.  

Esses versos me foram escritos por um amigo dileto, depois de me informar que um conhecido, que trabalhava no mesmo lugar que eu, fora assassinado por jovens em função de um carro e algum dinheiro.  No mesmo dia fico sabendo que os filhos de uma senhora digna se digladiam em virtude de uma herança. 

Há pessoas que creem que o ser humano é capaz de prodígios e, se bem condicionado, capaz de se tornar um “novo homem”. Outros chegam a gritar que “um outro mundo é possível”. Eu, pessimista (realista?) só vejo miséria no futuro do homem. Miséria, tragédia e tristeza. Nada mais.

Enfim, um conto, narrado por um idiota, cheio de som e de fúria, sem sentido algum.  

terça-feira, 8 de junho de 2010

Review

A história é antiga. Nem por isso deixa de ser tragicômica. Faco um resumo dos fatos:

Uma professora de uma conhecida Universidade israelense publicou um livro sobre os procedimentos do Tribunal Penal Internacional. A editora que havia publicado o livro enviou a obra para uma importante Revista de Direito Internacional. O Editor da revista selecionou entre os revisores cadastrados e enviou o livro a um professor alemão, reconhecido especialista na área.  

Depois de algumas semanas recebeu uma review do livro. A review não era nem um pouco elogiosa. Tecia, em pouquíssimas linhas, uma crítica dura sobre o livro, o conteúdo, a abordagem e, por fim, a editoração do livro. Tudo normal, tudo bem.  

Até que a autora do livro, professora já antiga, tomasse conhecimento da crítica.

Enviou carta enfurecida ao editor da publicação, exigindo que a review fosse imediatamente retirada do site da Revista e de quaisquer outros sites administrados pelo Editor. Afirmava que a review era desrespeitosa, não condizia com o conteúdo do livro, beirava a má-fé e a mentira e, ainda, prejudicava a sua reputação acadêmica. Agora o principal: fazia uma ameaça velada ao Editor, afirmando que a liberdade de expressão na Franca não era tao ampla como a garantida pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA (onde está o servidor que hospedou o site onde foi publicada a crítica).  

O Editor, em longa carta, respondeu a Autora, afirmando que não via razoes suficientes para retirar a review do site, e que – mesmo que não concordasse com o conteúdo da crítica – acreditava que essas reviews eram de suma importância para o mundo acadêmico e para o pleno desenvolvimento da ciência do direito.  

A professora israelense, não satisfeita, enviou nova carta ao Editor pedindo, desta vez, que a review fosse "temporariamente" retirada do site, até que tudo fosse esclarecido. O Editor, novamente em carta, sugeriu que a Autora postasse um comentário – o que era tecnicamente viável – no site, abaixo da crítica que, após moderação feita pelos editores, seria publicada. Cínica e ironicamente, sugeriu parcimônia da Autora na formulação do comentário. Ato contínuo, o editor pediu aos leitores que enviassem outras reviews tão ou mais críticas, para que ele pudesse, então, demonstrar que ela estava exagerando.  

Tudo bem, tudo bom. Até que o Editor foi intimado a comparecer a um Tribunal francês para responder pelo crime de injúria. A Autora se sentiu tao ofendida que, ato extremo, denunciou o Editor perante uma autoridade judicial francesa. A primeira audiência – uma mera formalidade processual – já ocorreu e a audiência „de verdade“ ocorrerá no dia 25 próximo.  

Como os meus dois leitores (oi, mãe! Oi, pai!) sabem, a professora israelense está errada. Absurdamente errada. Fez (e faz – até quando decidir levar adiante essa patacoada) papel ridículo, seja no mundo jurídico, seja no mundo acadêmico.  

Ora, em áreas nas quais as idéias não podem ser "cientificamente" comprovadas, como é o caso do direito, a troca e, principalmente e antes de tudo, a críticas das idéias é o motor que move o mundo. Pessoas sensíveis devem, agora mais do que nunca, ficar de fora desse mundinho mesquinho e pequeno. As que desejarem participar devem endurecer o casco. Apanhar – no sentido figurado, obviamente – faz parte e deve ser o objetivo de todo e qualquer acadêmico. Antes de ser uma ofensa é um elogio e a razão é claríssima: o revisor tomou seu tempo (sempre escasso) e leu o trabalho. Se achou uma merda, bom, aí o problema é dele. Mas, antes disso, é preciso lembrar que ele parou, sentou, leu, leu, leu, pensou novamente e, só então, sentou e escreveu que o trabalho era ruim, péssimo ou muito péssimo.  

Como disse, dou razão ao editor. Mas não deixo de ter certa simpatia com a professora israelense (mesmo achando o que ela fez uma besteira!) O problema, me parece, é que em um mundinho onde a pessoa passa anos, décadas, se dedicando a um assunto apenas, renunciando ao mundo que continua a girar, para escrever uma calhamaço de 500, 600, 1000 páginas, para depois ser chamada de burra, ignorante, desconhecedora, superficial etc, dói; e dói muito. Nem tanto pelo conteúdo do trabalho, mas por ver que todo aquele tempo gasto dentro de uma biblioteca nem sequer deu resultado... Pelo menos não a um dos resultados possíveis: o reconhecimento pelos pares. A frustração, neste caso aliada à uma sensibilidade exagerada, pode causar horrores como esse: uma mulher crescida se sentir ofendida – e levar isso até as últimas consequências – porque um outro professor disse que as idéias eram velhas e superficiais.  

Sorte que, ao contrário deles, eu gasto os meus dias aproveitando a vida e não enfurnado numa biblioteca qualquer....  

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Até o fim

Qualquer estudante sabe que deve ler o artigo até o final quando uma das primeiras referências é ao filme Desejo de Matar, do insuperável Charles Bronson:

"Ou, se a moral condena a execução privada de pessoas com predisposição à violência, mas não condena o uso de força mortal em legítima defesa, então é moralmente permitido que Charles Bronson caminhe pelo Central Park à noite com o único propósito de incitar pessoas com predisposição à violência a lhe atacar para que ele possa, então, mata-las em legítima defesa. (Nota de rodapé: Vide Desejo de Matar, Paramout, 1974)"

Larry Alexander, Is morality like the tax code? Michigan Law Review, 1997; 95(6):1839-1850, 1841.

[No original: Or, if morality condemns private execution of those disposed to violence but does not condemn the use of deadly force in self-defense, then it is morally permissible for Charles Bronson to walk in Central Park at night for the sole purpose of enticing violently disposed persons to attack him so that he can, in turn, kill them in self-defense. (See. Deathwish (Paramount, 1974)]

 

sábado, 5 de junho de 2010

Ridendo...

...castigat mores.

Tradução do brocardo: rindo castiga-se mais. Autoria, como sói, do Millôr Fernandes.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Deserto

Leio o projeto do Senador Cristóvão Buarque sobre a inclusão, na Constituição Federal, de dispositivo prevendo o direito do cidadão de buscar a felicidade. A busca da felicidade, essa figura tipicamente moderna de querer ser feliz, é algo que, ao fim e ao cabo, só causa mais infelicidade. E, pior, mais ansiedade e frustração. 


A felicidade não deve, infelizmente(!), ser o fim ou objetivo de uma vida. Uma tal vida será um estrodondoso fracasso. Porquê? Porque ninguém é inteiramente feliz. (Uma pessoa que se diz integralmente feliz não merece ser admirada ou festejada, mas antes tratada.) 


Devemos ser felizes? Talvez. A história da humanidade mostra que não. Toda a evolução humana é construída sobre sangue e cadáveres. E assim, infelizmente, continuará sendo. Guerras, doenças, desastres e bombas continuarão a inundar o noticiário. E continuarão a matar crianças e idosos indefesos. Pessoas sairão das nossas vidas sem explicação plausível. A dor continuará afetando as pessoas das quais mais gostamos. E a nós mesmos. Bons amigos nos decepcionarão, pessoas que amamos nos abandonarão. Tudo em busca da sua própria felicidade. A solução, já imaginada por Aldous Huxley, é afundarmo-nos em um mundo de drogas (metafóricas e reais) da felicidade. 


É possível, como aparentemente quer o digno Senador da República, buscar felicidade num mundo desses? Possível é; necessário nem tanto. Ter plena consciência de que somos necessária e invariavelmente solitários, buscamos o outro em função das nossas inseguranças, dos nossos medos e, acima de tudo, da nossa infelicidade, pode ser libertador. Buscamos completar os nossos vazios (existenciais) por meio do outro que, na nossa imaginação, nos trará completude e felicidade. A realidade é que o outro é tão vazio, inseguro e infeliz quanto nós e, na maior parte das vezes, também tem as mesmas expectativas que nós. Somando-se dois vazios buscando se completar mutuamente temos apenas uma conclusão lógica: a felicidade, por meio do outro, além de nao ser alcançada, transforma-se em dor, multiplicada em muitas vezes pela decepção. Ou pelo abandono. 


Imagine-se uma senhora de 70 anos. O marido – como as as estatísticas comprovam – se vai (voluntária ou involuntariamente). Ela viverá mais 10, 20 anos abandonada. Seus filhos estarão ocupados demais, sem tempo a perder preenchendo o vazio daquela senhora, buscando a própria felicidade dentro de suas famílias e vidas sociais. As amizades, já parcas em virtude da idade, não poderão trazer companhia. E ela, mesmo com o direito constitucional a buscar a felicidade, definhará, solitária. O mesmo ocorrendo com todos nós. Envelhecidos, solitários e – necessariamente – tristes. 


 Certo é que existem pequenos oásis de felicidade perdidos no deserto triste e estéril que é a vida. E é isso mesmo que os tornam tão importantes: diante de tristezas constantes, uma pequena felicidade (a família - e acima e antes de tudo a família -, um olhar apaixonado, o trabalho, os filhos, um bom filme, o suspiro antes do beijo, uma boa música, religião, sexo, etc, etc) tem sua eficácia potencializada. Que será, novamente, reduzida a pó diante da areia interminável (e triste) da rotina. 


Buscar a felicidade? Sem (grandes) expectativas de a encontrar pode ser válido. Ter o direito, por mandamento constitucional, à tal busca? Melhor não. 


PS - A prova de que eu estou errado está aqui


PPS - Uma análise jurídica simplória, na minha opinião, chegaria ao seguinte resultado: mais um projetode emenda constitucional inócuo. Se a dignidade da pessoa humana contém um mínimo de liberdade, neste mínimo está necessariamente incluído o "direito à busca da felicidade". Mas, conhecendo o Brasil, nao duvido que, em breve, todos nós teremos a garantia constitucional de buscar a felicidade.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Frase da Semana

“A alegação de que a tarefa de uma autoridade fiscal qualquer é a realização da justiça fiscal, certamente faria o cidadão médio rir; para ele a tarefa da autoridade fiscal é a obtenção de recursos financeiros para o Estado.”

Klaus Vogel, Steuergerechtigkeit und soziale Gestaltung, Deutsche Steuer-Zeitung, 1975, S. 409.

A idéia, contudo, não é nova. São Mateus já sabia: Marcos, 2, 13-17!

(No original: „Die Behauptung, daß die Aufgabe – etwa – eines Finanzamts in der Verwirklichung von Steuergerechtigkeit liege, würde den durchschnittlichen Bürger sicherlich lächeln machen; für ihn liegt die Aufgabe des Finanzamts in der Beschaffung von Finanzmittel für den Staat.“)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

0.7

Um "putaquepariu!" em uníssono foi o que ocorreu quando os dois doutorandos alemães que sentam na minha frente leram a notícia que eu havia mandado por e-mail:

Ballack, o astro do time, não vai para a África do Sul

Durante um jogo pela final do campeonato inglês o craque foi atingido por outro jogador, Kevin-Prince Boateng. Detalhe: Boateng é meio alemão, meio ganês. Já tendo sido convocado para a Copa pela seleção de Gana, o sujeito vai lá e dá uma entrada criminosa no astro do time alemão.  

Detalhe importantíssimo: Gana enfrentará a Alemanha na primeira fase da Copa.

Intencional!, gritam todos. Os jornais não escrevem claramente, mas todo mundo repete: o ganês machucou intencionalmente o melhor jogador alemão.

E agora?  

Agora nada. Balack recusou o pedido de desculpas do companheiro alemão-ganês e bancou o resignado: „Estou furioso, mas futebol é assim. Essas coisas acontecem“, disse ao Zeit. Oito semanas ao mínimo de recuperação e uma Copa do Mundo a menos no curriculum.

Para mim, felizmente, não muda muito. Nunca gostei muito de futebol e não será agora que vou começar. Sou colorado por forca do hábito e pressão do meu pai e do meu irmão. Assisto aos jogos, mas não posso dizer que sou um entusiasta do esporte bretão. Nunca acompanhei de perto nenhum time, nem mesmo um campeonato. Quando a conversa vai para futebol, das duas uma: fico quieto, pensando em alguma coisa e fazendo cara de interessado, ou participo ativamente, falando coisas como “mas aquele jogador, como é mesmo nome dele?, joga muita bola!” ou “com essa formação não vai dar! Temos que ir pro 2-5-3.” A que eu mais gosto, no entanto, é quando eu sei o nome do craque do time: “Cara, o técnico tem que urgentemente tirar o Fulano, ele tá afundando o time!”.  

Risos nervosos e gritos de "ignorante", "burro", "viado", etc, etc. Já ouvi de tudo. Uma variante dessa é clamar pelo retorno de um craque do passado. Essa também funciona sempre e, na maioria dos casos, minhas observações são acompanhadas de um grito de “tu não entende nada de futebol mesmo, seu boca aberta!”.  

Porque essa história toda? Apenas um gancho arbitrário que me fez lembrar da relativa importância do futebol na minha vida.  

Brasileiro que sou, qualquer pessoa que cruza comigo sempre tem a presunção de que eu amo futebol e, pior, que eu jogo futebol muito bem. Já em tenra idade (ui!) morando em outro país, todos me convidavam para jogar futebol ou, como eles diziam, soccer. Eu ia de bom grado. Fazer amigos não era a atividade mais simples e um esporte coletivo me ajudaria nessa empreitada.  

Logo nos primeiros minutos eles percebiam que não estavam diante um novo Garrincha, Zico, Falcão ou Ronaldinho Gaúcho. Quando muito diante de um daqueles zagueiros esforçados, mas que só sabem chutar a bola pra frente ou pra fora. Depois de não receber o terceiro convite ficou claro: não fiz os amigos que achei que faria e, terror!, perdi os poucos que já tinha feito. Tudo em função de ser um brasileiro que não joga futebol.  

Agora, em idade provecta (calma, calma...) acontece o mesmo: os alemães perguntam a minha opinião sobre jogadores brasileiros que atuam por aqui. Silêncio meu. Sinto os olhares inquietos esperando um análise detida sobre as qualidades e defeitos dos jogadores brasileiros. Mais silêncio. Depois de alguns minutos me olhando, uma de duas coisas ocorre: perguntam se eu sou argentino ou, na melhor das hipóteses, se eu não entendi a pergunta.  

Quando digo que não sou o maior fã de futebol, a conclusão é apenas uma: é argentino e, por vergonha, diz que é brasileiro.  

Essa semana, diante da convocação de vários jogadores brasileiros que atuam por estas bandas pelo técnico Dunga (o Dunga e o Gamarra sempre aparecem nas minhas observações futebolísticas, dizendo que se eles voltassem ao time, teríamos uma defesa melhor), perguntaram a minha opinião:  

- Pedrinho, o que tu acha do Grafite?!

Calmamente, sem entender muito bem, respondi:  

- Sempre gostei do 0.7 AB da Faber Castel. E tu?

Pronto. Lá se vão mais dois ex-amigos.  

sábado, 15 de maio de 2010

Frase (e charge) da semana

“No direito tributário vivenciamos a situação na qual pessoas que jamais pensaram em cometer um furto qualquer ou um roubo a banco estão perfeitamente dispostas a sonegar impostos.”

                                  Paul Kirchhof, Das Maß der Gerechtigkeit, 2009, p. 169.

(No original: Im Steuerrecht erleben wir, dass Menschen, die niemals auf den Gedanken kämen, einen Diebstahl oder einen Banküberfall zu begehen, zu einer Steuerhinterzehung durchaus bereit sind.)

Charge lá no Millôr