terça-feira, 7 de agosto de 2012

I. Seven. Nine. Pay. No. No. No.



Imagine a cena: um caixa de supermercado, no final do expediente, pede a carteira de identidade de uma menina chinesa que parecia ter menos de 16 anos (a idade mínima para comprar cerveja). A chinesa não entende e começa a falar uma estranha língua, onde se consegue entender, entre sons esquisitos, algumas palavras em inglês. Rapidamente se nota que ela tenta falar inglês e não consegue. A caixa, constrangida, fala apenas alemão. Ambas olham para o sujeito que está esperando (um doce para quem acertar quem era) e pedem, imploram ajuda com o olhar.
Eu, solícito, retiro meus fones de ouvido - que me separam de qualquer possibilidade de convivência -, e pergunto (em inglês) à chinesa se ela tem um documento de identidade. Ela me olha, processa aquelas palavras, sorri e balança a cabeça afirmativamente. Eu digo, então, à senhora do caixa que ela, sim, tem um documento de identidade. Ambos esperamos. A chinesa também espera. Passados alguns segundos constrangedores, torno a perguntar. A chinesa concorda mais uma vez. A caixa, impaciente, começa a chamar o gerente pelo alto-falante. 
Tenho uma ideia genial: retiro o meu passaporte da mochila e mostro pra ela. Uma lâmpada metafórica acende-se sobre a cabeça da chinesa e ela retira o seu passaporte da mochila e me mostra. Confiro algumas datas e vejo que consta: 30-01-1987. Mostro o meu passaporte à caixa, como que ensinando à chinesa o que ela deveria ter feito desde sempre. Ela, bastante desconfiada, faz o mesmo. A caixa me olha, balança a cabeça, me pergunta quantos anos ela tem e se eu achava que o passaporte era falsificado. Nisso chega o gerente e escuta apenas as palavras mágicas: passaporte falsificado. Ele começa a vociferar contra a chinesa, dizendo que ia chamar a polícia federal, que ela não poderia fazer isso apenas para comprar cerveja. A chinesa deu de ombros. Como ela não entendia nada do que estava sendo falado, aquele senhor poderia estar gritando comigo. Ou com a caixa. Ou mesmo com ela, mas isso não importava. 
Explicada a situação ao gerente, a chinesa entrega uma nota de 20 euros, recebe (e confere!) o seu troco e vai-se embora. Até aqui já seria uma história engraçada de contar aos amigos durante aqueles almoços monótonos e sem assunto. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, para citar um famoso sketch humorístico. Enquanto eu me preparava para digitar a senha do meu cartão, para pagar pelas minhas comprar (salada, peito de frango e 7 caixinhas de morangos congelados, para os curiosos) a chinesinha de 25 anos, com cara de pré-adolescente volta, se mete na minha frente e começa a gritar as palavras (sons?) que dão título ao post:
- I – Seven - Nine – Pay – No, No, No. 
- I – Seven - Nine – Pay – No, No, No. 
- I – Seven - Nine – Pay – No, No, No. 

A caixa me olha. Eu olho pra caixa. Ambos olhamos pra chinesa. Ela está furiosa. Ela segura um quilo de farinha na mão e grita:
- I – Seven - Nine – Pay – No, No, No. 
- I – Seven - Nine – Pay – No, No, No.

Tentando ajudar, olho pra chinesa e pergunto: - What happened?
Ela me olha, como se quisesse me matar com olhos, já achando que eu faço parte do staff do supermercado e grita ainda mais alto:
- I – Seven - Nine – Pay – No, No, No. 

Ela toma mais um fôlego, pensa da Amy Winehouse, e grita de novo:
No, No, No. Seven. Nine. Pay. No, No, No. 

Eu, tentando me desvencilhar daquela confusão, os outros clientes já me olhando, pensando que eu tinha xingado a chinesa, a caixa nos olhando, pensando que estava sendo gravada para a versão alemã da Pegadinha do Mallandro (rá-yeah-yeah) a chinesa gritando: No. No. Seven. Nine. E mostrando aquele saco de farinha.
Percebo que ela não concorda com o que pagou pela farinha. Que há um desencontro entre o preço apontado na prateleira e o preço que ela pagou. Tento acalmar e digo:
- Ok. I understand your predicament. You paid one euro and seventy-nine cents for this flour. How much do you think you should have paid? 

Percebo que a frase está um pouco complexa. Reformulo:
- You seven nine. How much you pay?- pergunto como se fosse o Tarzan recém aprendendo a falar. Ou a Chita. 
Ela me olha e diz: - I pay one four nine. No seven nine. Too much. Too much.

Respiro fundo, olho pra caixa e explico a situação. A caixa me olha, incrédula, e pergunta o que ela deve fazer. Eu olho pra ela e digo: - Chama o gerente.
Rapidamente saio do supermercado, monto na minha bicicleta e venho pra casa. No caminho me sinto culpado por ter abandonado a chinesa no supermercado, reclamando os seus trinta centavos. Só espero que o gerente não chame a polícia.
Chego em casa, sento para escrever este texto com apenas um pensamento na cabeça: eu sou uma pessoa ruim.